segunda-feira, 23 de fevereiro de 2026

Peixuxa a morsa tenta vender o Polo Norte

 No salão gelado das marés esquecidas,

ergueu-se Peixuxa, a morsa inflada,

com dobras rangendo como portas antigas

e uma coroa torta de prata salgada.


— “Cidadãos do frio, escutem meu plano!

O Polo Norte será minha mansão!

Comprarei os ventos, o gelo, o oceano,

e despejarei ursos sem indenização!”


Seu bigode tremia em pomposa oratória,

feito cortinas velhas num teatro cruel;

prometia lucro, glória e vitória,

vendendo o próprio silêncio a granel.


“Pois o sol e o dia,” disse em delírio,

“vão virar a areia da doce melodia;

e se eu pudesse ver um porco com asas,

jamais faria tal filantropia.”


As focas cochichavam: “Que morsa indecente…”

Os icebergs riam com dentes de sal.

Mas Peixuxa prosseguiu, gordamente:

— “Expulsar ursos é meu ideal!”


Então o gelo rangeu como osso partido,

o vento soprou uma vaia polar —

e o próprio Polo, farto e ofendido,

rachou-se inteiro sob seu discursar.


Peixuxa caiu no buraco gelado,

rodopiando em pompa e desgraça:

virou apenas um eco inchado,

boiando… sem trono, sem plano, sem graça.


E até hoje no norte, em noites sombrias,

ouve-se um sopro grotesco e profundo:

é a morsa vendendo… em parcelas frias,

o nada mais caro do mundo.

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