terça-feira, 17 de fevereiro de 2026

A Anatomia da Herança


Sob o céu de zinco, caminhas por ruas de asfalto novo,

mas sob o pavimento, os ossos dos ancestrais ainda rangem,

como dentes de ferro mastigando a terra úmida.

Amas este solo como se ama uma ferida que não fecha,

uma geografia de pântanos e neons, de silêncios e de gritos.

O país é um animal que devora a própria placenta,

uma besta que esconde o rastro de sangue com flores de seda.

Tu o vês nos olhos dos velhos que guardam segredos de pólvora,

e na pele dos jovens, tão lisa e pálida,

que se recusa a absorver o sol de um meio-dia nuclear.


Há uma ambiguidade que te esmaga o peito:

a mão que te oferece o arroz é a mesma que segurou a baioneta?

A voz que canta o hino é a mesma que ordenou o expurgo?

Tu te sentas à mesa com fantasmas que não têm nome,

comendo o fruto de uma árvore cujas raízes bebem de um poço escuro.

É um amor feito de náusea e de uma ternura grotesca.

Amas o vazio que este país deixou na história,

o espaço em branco onde a verdade deveria ter sido escrita,

mas foi apagada por uma borracha de medo e de vergonha.


Tu és o filho de uma nação que se finge de órfã,

que caminha de costas para o próprio incêndio,

enquanto tu, com as mãos sujas de cinzas,

tenta segurar o que resta da dignidade,

como quem segura um bebê frágil no olho de um furacão.

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