Sob o céu de zinco, caminhas por ruas de asfalto novo,
mas sob o pavimento, os ossos dos ancestrais ainda rangem,
como dentes de ferro mastigando a terra úmida.
Amas este solo como se ama uma ferida que não fecha,
uma geografia de pântanos e neons, de silêncios e de gritos.
O país é um animal que devora a própria placenta,
uma besta que esconde o rastro de sangue com flores de seda.
Tu o vês nos olhos dos velhos que guardam segredos de pólvora,
e na pele dos jovens, tão lisa e pálida,
que se recusa a absorver o sol de um meio-dia nuclear.
Há uma ambiguidade que te esmaga o peito:
a mão que te oferece o arroz é a mesma que segurou a baioneta?
A voz que canta o hino é a mesma que ordenou o expurgo?
Tu te sentas à mesa com fantasmas que não têm nome,
comendo o fruto de uma árvore cujas raízes bebem de um poço escuro.
É um amor feito de náusea e de uma ternura grotesca.
Amas o vazio que este país deixou na história,
o espaço em branco onde a verdade deveria ter sido escrita,
mas foi apagada por uma borracha de medo e de vergonha.
Tu és o filho de uma nação que se finge de órfã,
que caminha de costas para o próprio incêndio,
enquanto tu, com as mãos sujas de cinzas,
tenta segurar o que resta da dignidade,
como quem segura um bebê frágil no olho de um furacão.
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