segunda-feira, 16 de fevereiro de 2026

Em Busca de Faíscas

 

Em Busca de Faíscas

Para Roald Dahl

Quando Samantha mergulhou a mão nas chamas crepitantes da lareira e a recolheu com a velocidade de um chicote, Shan não perdeu tempo. Um sorriso torto e cruel dançou em seus lábios, iluminado pelo brilho alaranjado do fogo.

— Eu avisei que você não aguentaria — disse ele, a voz carregada de uma satisfação presunçosa. — O fogo não perdoa quem tem sangue de trouxa, Sam.

— Cale a boca, Shan! — retrucou ela, os olhos faiscando. — Eu não tirei a mão por causa do calor. Eu mal senti a temperatura.

Shan soltou uma risada seca, tipicamente cética. — Ah, claro. E por que foi, então? Um súbito ataque de bom senso?

— Eu senti uma ferroada — explicou ela, massageando a palma da mão. — No começo, foi como uma agulha de prata sendo enterrada na pele. Depois, a dor cresceu e latejou. Parecia... parecia um escorpião me picando por dentro.

— Não seja ridícula — zombou Shan, recostando-se na poltrona de veludo gasto. — Não existem escorpiões nesta parte do país, muito menos em pleno inverno. E se houvesse, o tio Morgan já teria devorado uns vinte no café da manhã, desde que a licantropia o deixou com aquele apetite peculiar.

— Você fala como se fosse um especialista em Criaturas Mágicas, mas não passa de um tonto, Shan. Sempre foi e sempre será: um bruxo de quinta categoria que mal consegue conjurar uma luz decente.

Shan gargalhou, embora o insulto tivesse atingido o alvo. — Não desconte sua frustração em mim, Samantha. Só porque a herança sobrenatural da família parece ter pulado a sua vez...

Sem dizer uma palavra, Samantha estendeu a palma da mão sob o nariz do primo. Sua pele, pálida como o pergaminho de um pergaminho antigo, parecia quase translúcida. No entanto, bem no centro da mão, uma mancha carmesim pulsava sob a epiderme. Era uma marca curiosa, cujo formato lembrava vagamente o perfil de um dragão minúsculo cuspindo labaredas.

— Quem sabe isso não é um sinal? — perguntou ela, o coração acelerado pela esperança. — Eu não senti o calor. Se eu fosse uma pessoa comum, minha mão estaria coberta de bolhas, e não com esta marca.

Shan, que era um bruxo devidamente iniciado como seu pai, observou a mancha com um interesse repentino. Eles pertenciam a uma linhagem antiga, cujas raízes se perdiam entre os videntes das Highlands escocesas e as bruxas das brumas irlandesas. O pai de Samantha também era um bruxo — o irmão mais novo do pai de Shan —, o que tornava a situação dela ainda mais amarga. O "problema", aos olhos da família mais conservadora, era que o pai dela se apaixonara perdidamente por uma mulher do mundo não-mágico. Uma trouxa.

Por conta disso, Shan a atormentava incessantemente. Eram brincadeiras de primo, tecnicamente, mas as palavras cortavam como feitiços de desarmamento. Ninguém gosta de ser o "Aborto" da família, o elo perdido que não consegue sequer acender uma vela com um estalar de dedos.

O desafio de Shan fora simples e brutal: — Se você tem sangue mágico, prove. Coloque a mão no coração da lareira. Se você se queimar, saberemos a verdade.

Samantha, movida por uma mistura de orgulho e desespero, aceitara. E, embora tivesse recuado, o resultado não era o que Shan esperava.

— Você deve ter alguma magia correndo nessas veias, afinal — admitiu Shan, a voz mais suave. — Não há queimadura. Nem uma vermelhidão sequer, além desse desenho esquisito. Para mim, é prova suficiente de que você não é uma trouxa completa.

— Obrigada, Shanzinho — ela respondeu, com um sorriso vitorioso, sabendo perfeitamente que ele detestava aquele diminutivo infantil.

Antes que ele pudesse retrucar, o som pesado da porta da frente se abrindo ecoou pelo corredor. Era o tio Morgan, anunciando aos brados que chegara do mercado com um carregamento de barras de chocolate para a ceia de Natal. Os dois jovens se levantaram num salto e correram para o corredor, ansiosos pelo banquete.

Na sala agora vazia, o silêncio foi quebrado apenas pelo estalar da lenha. Das brasas mais profundas, um pequeno escorpião de carapaça vermelha como rubi rastejou para fora do fogo. Ele atravessou o tapete com patas silenciosas e desapareceu em uma fresta na parede, levando consigo o segredo daquela tarde.

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