A chuva começou antes do amanhecer e não parou. Não era uma tempestade violenta, mas uma persistência — uma queda contínua, fina, como se o céu estivesse cansado e, em vez de gritar, tivesse decidido apenas desistir lentamente.
O pintor ficou sentado diante da tela em branco.
Durante horas.
O ateliê cheirava a óleo, madeira úmida e silêncio. A água escorria pela janela em trilhas irregulares, distorcendo a cidade lá fora, como se o mundo estivesse sendo apagado.
Ele tentou segurar o pincel.
Mas sua mão não se movia.
Sentia, com uma clareza quase cruel, que algo dentro dele havia terminado. Não era apenas falta de inspiração — era como se o impulso fundamental que o ligava à pintura tivesse sido retirado, deixando apenas uma forma vazia.
Pensou:
Talvez minha vida tenha sido só isso — um período provisório entre duas ausências.
A ideia não veio como drama, mas como constatação. E essa calma o assustou mais do que qualquer desespero.
Ele lembrou do tempo em que pintar era inevitável, como respirar. Quando cores surgiam dentro dele antes mesmo que olhasse para o mundo. Agora, porém, tudo parecia distante, como uma memória que não lhe pertencia mais.
A chuva continuava.
Ele percebeu que estava esperando algo — não sabia o quê. Talvez um sinal externo, algo que justificasse continuar.
Mas nada acontecia.
Até que, quase sem notar, a luz mudou.
Não foi súbito. Foi um deslocamento gradual. O cinza da janela começou a clarear de maneira estranha, não como quando o sol simplesmente aparece, mas como se estivesse tentando atravessar algo muito espesso.
Ele se levantou devagar.
Por trás das nuvens, o sol não surgia como forma — não havia disco, nem brilho direto. Era apenas uma difusão luminosa, um campo de claridade irregular, que fazia as gotas na vidraça brilharem em camadas.
E, naquele instante, ele viu algo que nunca tinha visto:
A chuva não era apenas queda.
Era também luz.
Cada fio de água carregava um reflexo diferente, como se milhares de linhas invisíveis estivessem ligando o céu à terra, não em tristeza, mas em uma espécie de insistência silenciosa.
Sentiu o peito apertar.
Não de alegria.
Mas de reconhecimento.
Como se compreendesse, finalmente, que o vazio que o paralisava não era ausência — era apenas um lugar ainda não nomeado.
Ele tentou respirar fundo.
Não conseguiu.
As lágrimas vieram antes.
Ele chorou ali mesmo, diante da janela, sem soluços, apenas deixando a água escorrer pelo rosto, misturando-se à luz que atravessava a chuva.
Atrás dele, a tela continuava em branco.
Mas, pela primeira vez naquele dia, o branco já não parecia o fim.
Nenhum comentário:
Postar um comentário