segunda-feira, 23 de fevereiro de 2026

O bar (conto)



Quando ele comprou o bar, não contou à esposa de imediato.
Disse apenas que havia adquirido “um negócio pequeno”, algo para garantir o futuro, algo que cheirasse a estabilidade. Mas, quando ela atravessou a porta pela primeira vez, sentiu imediatamente uma espécie de mal-estar — não medo ainda, apenas um peso no peito, como se o ar fosse espesso demais para respirar.

O bar ficava numa rua antiga, estreita, onde o sol chegava tarde e ia embora cedo. As paredes eram de um verde escuro já descascado, e o piso de madeira rangia mesmo quando ninguém andava sobre ele.

— Não gosto deste lugar — ela disse.
— É só velho — ele respondeu. — Lugares velhos sempre parecem tristes.

Mas naquela mesma noite, quando fechavam as portas, ouviram o primeiro grito.

Não foi alto. Foi abafado, distante, como se viesse de dentro de uma parede.
Ele congelou com a chave ainda na mão. Ela segurou o braço dele com força.

— Você ouviu?
— Deve ter sido na rua.

Mas não havia ninguém lá fora.

Os dias passaram, e os gritos continuaram. Às vezes eram choros. Às vezes, vozes confusas, como discussões que se sobrepunham. Outras vezes, apenas um som profundo, quase animal, que fazia as garrafas vibrarem no balcão.

Eles tentaram ignorar.

Ele dizia que era o vento. Depois, os canos. Depois, o prédio antigo “assentando”.
Ela parou de discutir. Apenas observava. Seu silêncio era pior do que qualquer reclamação.

Ela começou a dormir mal. Ele também.

Certa madrugada, acordaram com um estrondo — como se algo tivesse caído no porão. Desceram juntos, com a lanterna tremendo na mão dele.

Não havia nada fora do lugar.

Mas o chão parecia… úmido.

Não molhado como água. Era uma umidade fria, espessa, que parecia subir pelas solas dos sapatos.

Ela disse apenas:

— Este lugar não quer a gente aqui.

Os clientes começaram a perceber também.

Alguns diziam ouvir sussurros.
Um homem jurou que alguém havia tocado seu ombro quando estava sozinho no banheiro.
Uma mulher saiu correndo, pálida, dizendo que tinha visto “rostos” refletidos no espelho do bar.

O movimento caiu.

Ele insistia em continuar.

Mas uma noite, enquanto fechavam, o maior grito de todos ecoou. Não um som distante — mas perto, tão perto que parecia ter saído do próprio chão.

Ela desabou chorando.

— Vamos vender — disse. — Por favor. Antes que a gente enlouqueça.

Ele não discutiu.

A venda foi rápida. O comprador era um homem idoso, de olhar estranho, que parecia saber exatamente o que estava adquirindo.

No dia da assinatura, o homem disse calmamente:

— Vocês não pesquisaram a história do terreno, não é?

Eles se entreolharam.

— Que história? — perguntou o marido.

O velho hesitou, como se escolhesse palavras que não ferissem demais.

— Antes do bar existir, isto era um terreno abandonado. E antes disso… — ele respirou fundo — era uma vala comum.

O silêncio ficou pesado.

— Durante décadas — continuou o homem — corpos eram enterrados aqui. Pessoas assassinadas. Crimes violentos. Ninguém reclamava. Era uma época assim.

A esposa sentiu o estômago afundar.

— Muitos dizem — ele completou — que certas mortes não encontram descanso. Principalmente quando ninguém as reconhece.

Eles nunca mais voltaram àquela rua.

Mas às vezes, anos depois, acordavam no meio da noite ao mesmo tempo.

Sem saber por quê.

E, por alguns segundos antes de despertar completamente, tinham a mesma sensação:

Como se, sob a casa onde dormiam, existisse um chão profundo… cheio de vozes tentando subir.

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