O Pequeno Deus
A luz da manhã em Tóquio tinha a cor de uma cicatriz mal curada. Hariki, sentado à mesa de fórmica descascada, sentia o peso de sua própria carne como um fardo geológico. Aos vinte e poucos anos, ele habitava um corpo que parecia mais uma colônia de dúvidas do que uma unidade biológica.
Sua mente era um cinema de sombras. Ele pensava na era nuclear, na radiação silenciosa que, como um pecado original invisível, saturava as águas do Pacífico e os ossos das crianças. Para Hariki, o cogumelo atômico era a árvore do conhecimento de sua geração: um fruto de fogo que prometia o fim de todas as genealogias.
Para aplacar o pavor do absoluto, ele se perdia na pornografia visceral dos bairros baixos. Fechava os olhos e via as mulheres nuas de curvas exageradas e as travestis que brilhavam sob o neon de Shinjuku. Havia uma santidade grotesca naquelas formas, uma celebração da carne que desafiava a iminência da aniquilação. Ele buscava nelas uma prova de que a vida ainda era capaz de um desejo desordenado e pulsante, mesmo à sombra da destruição total.
Com as mãos trêmulas, Hariki pegou um ovo. Era um gesto banal, quase litúrgico. Ele pretendia quebrá-lo contra a borda da tigela, mas, ao primeiro toque, a casca não se partiu em fragmentos secos. Ela se abriu como um véu de seda.
De dentro do ovo, não escorreu a clara viscosa ou a gema amarela. Surgiu uma criatura minúscula, coberta por uma penugem que emitia uma luminescência pálida, quase radioativa. Era um pintinho, mas seus olhos não eram de ave; eram olhos antigos, profundos como poços bíblicos, carregando a gravidade de milênios.
"Não tenha medo, Hariki," disse o pequeno deus. A voz não vinha da garganta, mas vibrava diretamente no córtex cerebral do jovem. "Eu sou o Verbo que sobrou."
Hariki, paralisado, observou o pequeno deus caminhar sobre a mesa. A criatura deixou pegadas de luz sobre a superfície suja de farelos.
— Você é... Deus? — sussurrou Hariki, sentindo o absurdo da própria pergunta.
— Sou o que resta de uma divindade que se fragmentou para caber na sua angústia — respondeu o pintinho divino. — Vim falar sobre o tempo.
O pequeno deus explicou que o tempo não era uma linha, mas um tecido que estava sendo desfiado pelas extremidades. Ele descreveu o tempo como uma ferida aberta pela fissão nuclear, um momento em que a humanidade aprendeu a rasgar o próprio tecido da criação.
— Vocês transformaram o "Eterno" em "Imediato" — disse o deus minúsculo, sacudindo as asas douradas. — O tempo agora é apenas o intervalo entre o gatilho e o impacto.
Hariki sentiu um frio que não vinha do inverno japonês, mas do próprio âmago da existência. A visão das mulheres e das travestis que ele cobiçava voltou à sua mente, agora como estátuas de sal em uma Sodoma moderna.
— E agora? — perguntou Hariki.
O pequeno deus parou na beirada da mesa e olhou para a janela, onde o sol lutava contra o smog de Tóquio.
— Agora, o ciclo se fecha. O ovo foi aberto, e não há mais casca para proteger o mundo da sua própria luz. O fim não será um estrondo, mas um silêncio absoluto, como o de um ventre vazio. O mundo, Hariki, está voltando para o ponto onde a luz e as trevas não se distinguem.
O pintinho divino começou a crescer, não em tamanho físico, mas em brilho, até que Hariki não pudesse mais ver as paredes de seu quarto, nem o teto, nem a própria pele. O anúncio estava feito: a era do homem havia se consumido em sua própria inteligência técnica, e o pequeno deus estava ali apenas para apagar a última lâmpada.
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