Quando o soldado paulista voltou da Guerra de Canudos, ninguém percebeu de imediato que algo nele tinha quebrado. Por fora, continuava o mesmo homem magro, de bigode ralo e postura orgulhosa, como se ainda marchasse dentro de um uniforme invisível.
Mas por dentro, carregava um silêncio cheio de vozes.
Ele não falava sobre o que tinha visto no sertão. Não falava das casas queimadas, das mulheres correndo com crianças no colo, dos corpos pequenos demais para serem chamados de inimigos. O que mais o perseguia não era o barulho dos tiros, mas o silêncio depois deles — aquele silêncio seco, pesado, que parecia dizer que nada daquilo tinha qualquer sentido.
Às vezes, à noite, ele sentia gosto de poeira na boca, mesmo estando longe do sertão.
E acordava com a impressão de que ainda estava pisando sobre ossos.
Quando chegou em casa, encontrou a mulher sentada à mesa com outro homem. Não havia escândalo, nem gritos. Os dois conversavam baixo, como se já esperassem por ele.
O soldado ficou parado na porta por muito tempo.
Pensou em matá-la.
Não como impulso — mas como uma ideia fria, lógica, quase administrativa, como se fosse apenas mais um gesto inevitável do mundo.
Mas então percebeu algo estranho: não sentia raiva.
Sentia apenas cansaço.
Olhou para os dois e disse, com uma calma que assustou mais do que qualquer fúria:
— Eu vi gente morrer por causa de palavras que ninguém entendia. Honra. Pátria. Fé. Agora volto e descubro que casamento também é uma dessas palavras.
A mulher chorou. O outro homem tentou falar, mas não encontrou voz.
O soldado continuou:
— Talvez tudo isso seja apenas um acordo inventado por pessoas com medo de ficarem sozinhas.
Ele ficou pensando por um momento, como se escutasse alguma coisa distante.
— E no fim, morremos do mesmo jeito.
Então pegou apenas um chapéu e saiu.
Sem brigar. Sem olhar para trás.
Vagou por meses. Trabalhava onde podia, dormia pouco, falava menos ainda. Às vezes sentia que sua vida tinha se tornado um sonho mal contado, daqueles em que os acontecimentos não têm ligação entre si.
Um dia decidiu ir para Rio de Janeiro.
Não sabia exatamente por quê. Apenas sentiu que precisava ir para um lugar onde o mar existisse — porque o mar, pensava, era a única coisa grande o suficiente para engolir as lembranças.
Na véspera da viagem, uma cigana o abordou na rua.
Ela não pediu dinheiro. Não pediu nada.
Apenas segurou sua mão e disse:
— Você carrega mortos nos olhos.
Ele tentou puxar a mão, mas ela apertou mais forte.
— E ainda vai carregar mais. Há um vento estranho soprando no sertão. Uma revolta vai nascer em um lugar chamado Princesa. Sangue de novo. Sempre sangue.
Ele não respondeu.
Mas, pela primeira vez desde a guerra, sentiu medo — não do futuro, mas da repetição.
A cigana soltou sua mão e sorriu, como quem conta uma piada triste.
— A vida não tem sentido, soldado. Mas insiste em continuar.
Na manhã seguinte, ele caminhava orgulhoso pela rua, levando sua pequena mala, convencido de que finalmente estava começando uma nova vida.
Foi então que sentiu o impacto.
Um tiro pelas costas.
Ele caiu sem entender.
Enquanto o mundo escurecia, teve uma última sensação estranha: não dor, nem revolta — apenas a impressão de que tudo aquilo era absurdamente familiar.
Como se estivesse voltando, outra vez, para a mesma poeira do sertão.
E, por um instante antes do fim, pensou:
Talvez a vida seja só isso — um caminho que sempre retorna ao mesmo vazio, não importa para onde a gente fuja.
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