segunda-feira, 23 de fevereiro de 2026

O poeta (conto)

 Ele saiu para caminhar porque não conseguia escrever.

A página em branco sobre a mesa parecia observá-lo com uma espécie de reprovação silenciosa, como se dissesse: você não tem nada verdadeiro a dizer.

Era noite em Campinas, e o ar carregava aquele cheiro indefinido de poeira, gasolina e árvores cansadas. O poeta caminhava sem destino, pensando que talvez a literatura fosse apenas uma tentativa elegante de organizar a solidão.

Foi então que a viu.

Ela estava sob a luz de um poste, imóvel, como se tivesse sido colocada ali por algum erro do mundo. Era bela de um modo inesperado — não frágil, mas firme, com um olhar que parecia atravessar as pessoas antes mesmo que elas percebessem.


— Você parece perdido — ela disse, com um sorriso leve.

Ele respondeu algo confuso. Disse que pensava em escrever um conto, mas não sabia sobre o quê. Disse que às vezes achava que sua vida era pequena demais para virar literatura.

Ela riu, não com deboche, mas como quem conhece uma verdade antiga.

— A vida nunca é pequena — disse. — Só é mal escutada.

Então, sem aviso, ela se aproximou e o beijou.

Não foi um beijo longo. Foi rápido, quente, inesperado — como um pensamento que surge antes de desaparecer.

Ele ficou parado depois, sentindo o coração bater com uma estranha calma, como se algo dentro dele tivesse sido reposicionado.

— Escreva sobre isso — ela disse. — Sobre o momento em que você percebe que o mundo é maior do que o seu medo.

E foi embora caminhando devagar, dissolvendo-se na noite como uma lembrança que ainda não existe.

O poeta voltou para casa com uma sensação rara: a de que sua vida, por um instante, havia tocado algo verdadeiro.

Sentou-se diante da página em branco.

E, antes de começar a escrever, teve um pensamento súbito, quase infantil:

Que um dia ganharia o Nobel.

Não por fama. Nem por glória.

Mas porque, naquele momento, acreditava que escrever era apenas isto —

tentar preservar, com palavras, um beijo inesperado no meio da noite.

Quando acordou, a manhã já entrava pela janela.

A página continuava em branco.

E ele não sabia dizer se tinha realmente saído para caminhar…

ou se tudo havia sido apenas um sonho que ainda não terminara.


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