Lá fora, a tarde se despedia em chuva,
um ritmo de vidro batendo contra o muro da casa,
e nos meus olhos, por uma estranha asa
da memória, a mesma água se avoluma.
Não é apenas a umidade que o céu derrama,
mas uma neve mental, um silêncio suspenso,
onde o pensamento se faz pluma, vago e intenso,
caindo sobre o pátio onde o tempo reclama.
Sou esse observador de um inverno interior,
onde a chuva de fora encontra a minha caligrafia;
chove o dia, chove a alma, chove a agonia
de quem busca, no gelo da pluma, o antigo calor.
O vidro nos separa, mas a queda é a mesma:
a pluma que desce, a chuva que desatina,
nessa cidade, em Campinas, que no espelho se fascina,
enquanto o mundo, alheio, se desfaz no teorema.
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