O jornal sangra a seda do czar cortada em fatias de
sílaba de botas
o telefone é uma couve-flor apodrecendo no gelo da Sibéria
tic-tac o poema é uma cavidade na parede de concreto
o orifício da história
onde o ditador sussurra números de sapatos
e o amor é uma preposição gasta
pela umidade da censura.
Recorte o relâmpago:
Pasternak + cinza + o som de um trinco + adeus.
O buraco na parede é a única métrica possível
neste século de ferro e vírgulas inúteis
uma fresta
um olho
um nada
onde se esconde a luz que não pode dizer o nome
do pai
do poeta
do erro.
A lógica caiu da mesa como uma criança de vidro
o jornal está picado
o silêncio é a nossa melhor rima
o buraco é a boca de um deus que se esqueceu de falar.
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