sexta-feira, 27 de outubro de 2017

esfera e quadrado


Informação


Gazel do mar inútil

Gazel do mar inútil
Até quando mar? até quando
coração de espuma,
galope de noite, espuma
de vinho, ferida de algas.
As estrelas no céu não
piscam nem choram lesmas.
Agora chega mar,
chega de rios e fontes.
Até quando até quando?
E você me pergunta coisas
que nem o luar me responde.
Até quando mar?
Até quando
coração de espuma,
galope de noite, espuma
de vinho, ferida de algas.

Gazel do amor quebrado

Gazel do amor quebrado
Quebraram o meu amor,
que pena, mataram o meu
amor quando eu não tinha
anos nem olhos nem penas
nem cauda nem cimento
nem lírios.
Ai, quebraram o meu amor,
meu amor no campo lento,
meu amor de lesma,
meu amor de pedra.
Quebraram o meu amor,
quebraram, não mataram,
e arremessaram os meus
olhos pelas janelas
e os corvos riram,
quebraram o meu amorzinho,
o meu delicado
amorzão de baleia serena.
Quebraram, quebraram,
ai de mim, maomé e moisés,
quebraram os meus amores,
ai de mim, Jesus Cristo de Nazaré,
quebraram o meu amor,
quebraram, quebraram, quebraram,
meu Deus, quebraram o meu amor,
quebraram quebraram quebraram.
Meu amor era de vidro,
que pena, caiu no chão
e se espatifou.
Quebraram, quebram, quebraram,
o meu amor deixaram espatifado
pela lua, pelo caminho, pelo chão,
quebraram, quebraram, quebraram,
ai Jesus de Nazaré, quebraram o meu amor.
Você sabe que
quebraram, quebraram, quebraram.
E depois ela me coseu de beijos.
Me amaram me amaram me amaram.

Gazel do menino morto

Gazel do menino morto

E fui pelas bibliotecas
procurando livros e pessoas.
Não encontrei nada
a não ser palavras e mel.
Fui pelas bibliotecas,
não, com o corpo quebrado,
com o amor desperdiçado,
fui pelas bibliotecas.
Ai, solidão de luares tantos,
fui pelas bibliotecas,
observando os pássaros
mortos nas janelas,
fui pelas bibliotecas,
sim, pelas praças
desertas, pelos mares
dos olhos constelares,
fui e não fui,
fui e sim não fui,
fui morto pelas bibliotecas,
cada livro era uma tumba,
cada palavra um lenço,
e fui pelas bibliotecas,
decifrando letras e números,
sem entender nada,
sem entender tudo.

Gazel incompreensível

Gazel incompreensível
Está na hora de levantar
esse luar pálido nos teus
olhos de ofuscante lema.
Amor, chega de amor.
Para mim cansei de coisas
que não sejam quevedescas.
Está na hora de tomar
o café com leite toando
o som do amor em coro.
Amor, chega de amor.
Para mim cansei de coisas
que não sejam gongóricas.

Gazel clandestino

Gazel clandestino
Mas que violão sereno
a rocha do teu corpo em fogo,
sera saturno ou vénus,
planetas feitos de lodos e iodo.
Meu coração observou a
clandestinidade do teu corpo,
ó luz do amor feita de ares,
arames que sejam belos
em tua pele manchada de
fêmea, raposa, mulher, vela;
para onde iria a luz dela
no violino, violão, angelical,
esculpido corpo de moça,
quando lambes o açúcar do céu.