quarta-feira, 9 de setembro de 2026

Escuta, Carlos!

 — Você nunca me ouve, Carlos. Nunca.


— Eu estou ouvindo, Clara. Com um ouvido na tua reclamação e o outro na prorrogação do jogo, mas estou.


— Viu? É exatamente isso! Para você, o drama da minha existência e um gol de cruzamento na área têm o mesmo peso.


— Convenhamos que o cruzamento foi bem ensaiado.


— Vai à merda, Carlos! Eu estou falando de projeto de vida, de comunhão de almas, de a gente parar de fingir que esse namoro tem futuro, e você me vem com tática de chuveirinho!


— Ora, Clara, não complica. A gente se gosta, sai para comer pizza no sábado, discute o relacionamento na terça. É o ciclo natural da vida moderna. Para que estragar com essa urgência toda?


— Porque eu não sou um plano de previdência privada para render juros a longo prazo! Eu quero paixão, quero fogo, quero um homem que me olhe e perca o rumo de casa!


— Perder o rumo de casa nessa zona norte às dez da noite é pedir para ser assaltado, Clara. Seja realista.


— Terminou?


— Depende. O juiz apitou o fim do primeiro tempo ou ainda tem acréscimo?

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