domingo, 6 de setembro de 2026

A madrugada - conto

 

    A madrugada enxia os restos de um domingo idiota. Ela encostada no pilar de concreto, a saia de couro sintético subida até a virilha, as coxas longas brilhando no sereno de Campinas. A peruca preta armada como um capacete de guerra e o batom escarlate estragado nos cantos da boca.

O homem parou o carro na canaleta, a porta estalando. Nem desligou o motor. Chegou com o maço de cigarros amassado na mão, oferecendo um com o dedo trêmulo.

— Fuma essa desgraça comigo!

Ela olhou de soslaio, a fumaça subindo pelos olhos de gata cansada.

— Cigarro de pobre não me compra, anjo.

— Tenho o resto do maço e uma garrafa de cachaça boa no porta-luvas. E um quarto sem vizinho curioso na rua de trás.

A travesti deu uma risada curta, seca, que raspou no asfalto. Jogou a cabeça para trás, avaliando o estrago daquele quarentão de paletó amassado. Sabia o gosto de carniça que a boca dele tinha, mas a noite estava longa e o estômago pedia um trocado.

— Anda, desgraçado. Não me faz perder o meu tempo.

No cubículo fedendo a mofo e sabão, nem tiraram a roupa direito.

Ela deitou na beirada da cama de molas que gritavam a cada respiração, abrindo as pernas com o desdém de quem já viu o mundo inteiro por aquele buraco de fechadura.

O homem afundou o rosto na carne escura e quente, lambendo a urgência e a humilhação, os dois engolindo o vômito da própria solidão até o dia estourar cinzento lá fora.

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