terça-feira, 8 de setembro de 2026

O Gatohomem de Campinas - conto fántastico

 

CORREIO DE CAMPINAS - Caderno de Ocorrências Cotidianas e Inexplicáveis

Prefeitura suspende buscas por bípede felino; Zoonoses alega falta de formulários para entidades cósmicas

CAMPINAS, SP —Na madrugada desta terça-feira, a Guarda Municipal encerrou oficialmente o inquérito sobre o chamado "Gatohomem do Largo do Rosário". Segundo o boletim de ocorrência, preenchido com caligrafia trêmula e rasurado três vezes pelo oficial de plantão, as buscas foram interrompidas por absoluta inadequação burocrática: o sistema municipal não possui protocolo para a captura de abominações indescritíveis.

As aparições começaram na última sexta-feira. Diversos transeuntes relataram a presença de um felino de dois metros de altura, caminhando ereto sobre as patas traseiras pelas calçadas de paralelepípedo do centro. A criatura, descrita como portadora de uma pelagem negra que parecia absorver a luz dos postes e olhos amarelos que refletiam a fria e ancestral indiferença do cosmos, tem causado transtornos leves ao comércio noturno.

O Sr. Lucrécio, jornaleiro aposentado, foi a principal testemunha. "Ele não miou nem rosnou", declarou o idoso, que desde então se recusa a olhar para o céu noturno. "A besta parou ao meu lado no ponto de ônibus da Avenida Francisco Glicério. Com as garras pingando um lodo de eras mortas, ele ajeitou a gola de um sobretudo invisível e reclamou, em um dialeto gutural e pré-humano, sobre a demora da linha 381."

Agentes do Departamento de Zoonoses tentaram intervir na noite de domingo, munidos de redes padrão e petiscos de fígado. No entanto, ao ser cercada nos fundos do Palácio da Justiça, a criatura simplesmente rejeitou as leis da física tradicional. Testemunhas afirmam que o monstro dobrou seu corpo humanoide em ângulos não-euclidianos, achatando-se em uma geometria blasfema antes de escorrer, como uma sombra espessa, para dentro das grades de um bueiro.

A Prefeitura emitiu uma circular interna tranquilizando a população. O texto afirma que, embora a criatura exale uma aura de loucura e desespero primordial, ela aparentemente não é portadora do vírus da raiva. Pede-se apenas aos munícipes que mantenham as lixeiras devidamente trancadas e evitem oferecer sardinhas a divindades esquecidas pela razão. O caso foi arquivado na gaveta de assuntos pendentes, aguardando um carimbo da vigilância sanitária.

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