CORREIO DE CAMPINAS - Caderno de
Ocorrências Cotidianas e Inexplicáveis
Prefeitura suspende buscas por bípede felino; Zoonoses
alega falta de formulários para entidades cósmicas
CAMPINAS, SP
—Na madrugada desta terça-feira, a Guarda Municipal encerrou oficialmente o
inquérito sobre o chamado "Gatohomem do Largo do Rosário". Segundo o
boletim de ocorrência, preenchido com caligrafia trêmula e rasurado três vezes
pelo oficial de plantão, as buscas foram interrompidas por absoluta inadequação
burocrática: o sistema municipal não possui protocolo para a captura de
abominações indescritíveis.
As aparições começaram na
última sexta-feira. Diversos transeuntes relataram a presença de um felino de
dois metros de altura, caminhando ereto sobre as patas traseiras pelas calçadas
de paralelepípedo do centro. A criatura, descrita como portadora de uma pelagem
negra que parecia absorver a luz dos postes e olhos amarelos que refletiam a
fria e ancestral indiferença do cosmos, tem causado transtornos leves ao
comércio noturno.
O Sr. Lucrécio,
jornaleiro aposentado, foi a principal testemunha. "Ele não miou nem
rosnou", declarou o idoso, que desde então se recusa a olhar para o céu
noturno. "A besta parou ao meu lado no ponto de ônibus da Avenida
Francisco Glicério. Com as garras pingando um lodo de eras mortas, ele ajeitou
a gola de um sobretudo invisível e reclamou, em um dialeto gutural e
pré-humano, sobre a demora da linha 381."
Agentes do Departamento
de Zoonoses tentaram intervir na noite de domingo, munidos de redes padrão e
petiscos de fígado. No entanto, ao ser cercada nos fundos do Palácio da
Justiça, a criatura simplesmente rejeitou as leis da física tradicional.
Testemunhas afirmam que o monstro dobrou seu corpo humanoide em ângulos
não-euclidianos, achatando-se em uma geometria blasfema antes de escorrer, como
uma sombra espessa, para dentro das grades de um bueiro.
A Prefeitura emitiu uma
circular interna tranquilizando a população. O texto afirma que, embora a
criatura exale uma aura de loucura e desespero primordial, ela aparentemente
não é portadora do vírus da raiva. Pede-se apenas aos munícipes que mantenham
as lixeiras devidamente trancadas e evitem oferecer sardinhas a divindades
esquecidas pela razão. O caso foi arquivado na gaveta de assuntos pendentes,
aguardando um carimbo da vigilância sanitária.
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