terça-feira, 8 de setembro de 2026

A menina e a bruxa - conto fantástico

 

DIÁRIO DE TLÖN 

Suplemento de Arquitetura, Espectros e Labirintos

Menina refuta o tempo cíclico e impede furto ontológico na residência dos Álvares

BUENOS AIRES (Via Campinas) — Na confluência inexata entre as sombras do corredor oeste e o esquecimento absoluto, ergue-se o casarão da senhora Cassandra. Foi neste endereço que, no crepúsculo da última quinta-feira, o fluxo linear do tempo sofreu uma ameaça de inversão. O boletim registrado na Sociedade de Estudos Metafísicos de Campinas relata a tentativa frustrada de um delito paradoxal: o roubo da juventude alheia por um agente há muito falecido.

        A autora da infração era Ofélia, referida nos alfarrábios locais como a "bruxa pálida". Os registros cartoriais atestam, com a ilusória precisão típica dos documentos cívicos, que Ofélia faleceu por asfixia mística naquele mesmo casarão há exatas cinco décadas. Contudo, no universo das casas antigas, a morte não é um destino, mas um erro de gramática. Ofélia não havia partido; convertera-se em um artifício da própria arquitetura, aguardando pacientemente nos ângulos cegos dos espelhos. Seu objetivo era geométrico e perverso: transmutar sua estática palidez cadavérica na vitalidade de sua hospedeira, a tia Cassandra, através de um axioma de troca equivalente.

        O processo de usurpação já se iniciara quando a noite caiu. Observadores do invisível relatam que a velhice de Cassandra migrava, gota a gota, para a superfície do grande espelho prateado da sala de estar, enquanto a face de Ofélia, emergindo do outro lado do azougue, recuperava o rubor de 1976. A imortalidade e a juventude, provou o evento, são apenas uma questão de contabilidade furtiva entre dois mundos.

    O crime cósmico só não se consumou graças à intervenção da menina Síria. Alheia à complexidade erudita dos labirintos temporais, a criança valeu-se de uma refutação violenta e irrefutável. Munida da pesada Enciclopédia Britânica (Volume M, Mirrors to Myths), Síria atirou o tomo contra o cristal no exato momento em que as almas se cruzavam no meridiano do espelho. Ao fragmentar a superfície, fragmentou o próprio tempo.

            Os peritos que recolheram os cacos confirmaram que o feitiço foi cancelado por um paradoxo: a bruxa pálida foi multiplicada e reduzida a milhares de réplicas minúsculas e inofensivas, agora presas para sempre nos estilhaços espalhados pelo tapete persa. Cassandra manteve suas rugas intactas, declarando aos repórteres que a eternidade lhe parecia, afinal, um conceito excessivamente longo e cansativo. Síria, por sua vez, retornou aos seus cadernos de matemática, perfeitamente indiferente ao fato de ter assassinado a morte.

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