DIÁRIO DE TLÖN
Suplemento de Arquitetura, Espectros e Labirintos
Menina
refuta o tempo cíclico e impede furto ontológico na residência dos Álvares
BUENOS AIRES
(Via Campinas) — Na confluência inexata entre as sombras do corredor oeste
e o esquecimento absoluto, ergue-se o casarão da senhora Cassandra. Foi neste
endereço que, no crepúsculo da última quinta-feira, o fluxo linear do tempo
sofreu uma ameaça de inversão. O boletim registrado na Sociedade de Estudos
Metafísicos de Campinas relata a tentativa frustrada de um delito paradoxal: o
roubo da juventude alheia por um agente há muito falecido.
A autora da infração era Ofélia, referida nos alfarrábios locais como a
"bruxa pálida". Os registros cartoriais atestam, com a ilusória
precisão típica dos documentos cívicos, que Ofélia faleceu por asfixia mística
naquele mesmo casarão há exatas cinco décadas. Contudo, no universo das casas antigas,
a morte não é um destino, mas um erro de gramática. Ofélia não havia partido;
convertera-se em um artifício da própria arquitetura, aguardando pacientemente
nos ângulos cegos dos espelhos. Seu objetivo era geométrico e perverso:
transmutar sua estática palidez cadavérica na vitalidade de sua hospedeira, a
tia Cassandra, através de um axioma de troca equivalente.
O processo de usurpação já se iniciara quando a noite caiu. Observadores do
invisível relatam que a velhice de Cassandra migrava, gota a gota, para a superfície
do grande espelho prateado da sala de estar, enquanto a face de Ofélia,
emergindo do outro lado do azougue, recuperava o rubor de 1976. A imortalidade
e a juventude, provou o evento, são apenas uma questão de contabilidade furtiva
entre dois mundos.
O crime cósmico só não se consumou graças à intervenção
da menina Síria. Alheia à complexidade erudita dos labirintos temporais, a
criança valeu-se de uma refutação violenta e irrefutável. Munida da pesada
Enciclopédia Britânica (Volume M, Mirrors to Myths), Síria atirou o tomo contra o
cristal no exato momento em que as almas se cruzavam no meridiano do espelho.
Ao fragmentar a superfície, fragmentou o próprio tempo.
Os peritos que recolheram os cacos confirmaram que o
feitiço foi cancelado por um paradoxo: a bruxa pálida foi multiplicada e
reduzida a milhares de réplicas minúsculas e inofensivas, agora presas para
sempre nos estilhaços espalhados pelo tapete persa. Cassandra manteve suas
rugas intactas, declarando aos repórteres que a eternidade lhe parecia, afinal,
um conceito excessivamente longo e cansativo. Síria, por sua vez, retornou aos
seus cadernos de matemática, perfeitamente indiferente ao fato de ter
assassinado a morte.
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