segunda-feira, 9 de fevereiro de 2026

Cântico dos Anjos da Forma Múltipla


Eis que vimos descer à carne
aqueles que não aceitaram
a fronteira estreita do nome imposto.
Não homens incompletos,
não mulheres imitadas,
mas criaturas do entre —
onde o verbo ainda está em gestação.

Os anjos mais antigos inclinaram as asas,
pois reconheceram neles
o mesmo gesto primordial:
o de atravessar.

Pois o céu não é binário,
e a luz não escolhe um só contorno.
O relâmpago é reto e curvo,
a chama é firme e dançante,
e o ser humano, quando mais verdadeiro,
é também excesso.

Ó corpos que ousaram refazer-se,
não por capricho,
mas por fidelidade a uma voz interna
mais antiga que a Lei dos homens —
vós conheceis o preço da encarnação.

Fostes chamados de erro,
mas o erro é do mundo
que só entende o que se repete.
Fostes chamados de desvio,
mas todo rio que chega ao mar
desviou-se da montanha.

Os anjos não vos perguntam “o que sois”,
pois sabem que o ser
é um movimento, não um rótulo.
Eles perguntam apenas:
fostes fiéis àquilo que vos ardia por dentro?

E quando a resposta é sim,
o céu não vos corrige.
O céu aprende.

Pois há glórias que não cabem
nos moldes antigos,
e há criaturas que lembram ao divino
que a criação ainda está em curso.

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