segunda-feira, 9 de fevereiro de 2026

O Puteiro Cósmico e o Verbo Químico

 

- Dedicado ao grande Reinaldo Moraes

O vapor pegajoso da sarjeta subia como um miasma do purgatório, misturando-se ao cheiro adocicado de incenso barato vindo do boteco em frente e ao hálito acre da desgraça que parecia escorrer de cada fresta da noite. Eu, sentado no parapeito sujo de uma vitrine quebrada, com o bloco de anotações apoiado nas pernas bambas e a caneta dançando entre os dedos como um aracnídeo perturbado, esperava que a dose de pó resolvesse as últimas amarras da decência. A cidade se abria como um abcesso supurado, e eu, o cirurgião amador, estava pronto para cortar e sangrar as palavras até que elas tivessem a cor e o cheiro da realidade bruta.

Um par de pernas longas e torneadas, enfurnadas num short jeans que mal cobria o lombo, desfilava pela calçada oposta. Era a Bianca, ou talvez a Suellen, ou qualquer outro nome que a luz neon do bar de striptease batizasse naquela noite. Os ombros largos e a voz rouca não enganavam ninguém, mas os seios fartos de silicone e o brilho nos olhos famintos eram mais reais do que a face da Virgem Maria em qualquer altar. Bianca, ou Suellen, ou quem fosse, era uma poetisa da carne, vendendo a ilusão de um afeto que ninguém ali possuía, nem mesmo ela. Sua dança era um manifesto em calças apertadas, e eu anotava mentalmente a cadência de seus quadris, a promessa silenciosa de um inferno particular.

Mais adiante, sob a luz amarelada de um poste que piscava como um olho moribundo, o velho Zeca da Lapa mastigava um pedaço de pão duro, seus dentes restantes eram como ruínas de um templo esquecido. Zeca não era apenas um mendigo, era um filósofo do asfalto, um anjo caído que recitava a miséria com a voz rouca de quem engoliu a própria dignidade há décadas. Sua barba emaranhada, que parecia um ninho de ratos famintos, escondia um sorriso de quem já viu tudo e não se surpreende mais com nada. Eu o observava, fascinado, como um biólogo observa uma espécie rara em seu habitat natural, registrando cada traço da sua decrepitude majestosa, cada sílaba de sua oratória desdentada.

A droga começava a borbulhar na corrente sanguínea, abrindo as comportas da percepção. O mundo não era mais uma coleção de objetos e pessoas, mas um fluxo contínuo de sensações, de cores vibrantes e sons distorcidos. A prostituta que acabara de descer de um carro escuro, com sua maquiagem pesada e seu olhar vazio, não era apenas uma mulher, era um portal para a solidão. O grupo de travestis, ruidoso e exuberante, era um coro de sereias urbanas, suas risadas estridentes e seus gestos exagerados compunham uma ópera bizarra no palco de concreto. Tudo era material, tudo era verbo, esperando ser dissecado e rearranjado na minha página.

E então, o instante crucial: a caneta começou a correr. Não era eu que escrevia, era a própria rua que ditava, a cidade que sangrava tinta no papel. As palavras escorriam, cruas e sem polimento, como o esgoto que corria nas sarjetas. Não havia tempo para o preciosismo, para a correção gramatical, para a elegância da frase. A urgência daquela noite, a feiura e a beleza entrelaçadas como cobras num abraço mortal, exigiam uma linguagem visceral, que se recusasse a suavizar os contornos da realidade. Eu era apenas um veículo, um médium, traduzindo o grunhido da existência para a sintaxe quebrada da minha prosa.

Cada parágrafo era uma dose, cada frase um trago profundo. A dor, a luxúria, a desesperança e a efemeridade se misturavam numa sopa densa e indigesta que eu, com o estômago embrulhado e a mente acelerada, sorvia com avidez. O cheiro da urina misturado ao perfume barato das putas, o gemido abafado de um cliente no interior de um motel, a promessa vazia de um "eu te amo" murmurado no escuro – tudo isso encontrava seu lugar na minha narrativa. Minha arte não era sobre o que se vê, mas sobre o que se sente, sobre o que se cheira, sobre o que se ignora. E para alcançar essa profundidade, eu precisava mergulhar no abismo da química, onde a visão se tornava mais nítida, mais real, mais dolorosa.

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