Juan era um homem de presença larga. Não apenas no corpo, mas no modo como ocupava os espaços: quando entrava numa sala, as cadeiras pareciam se afastar um pouco, como se precisassem respirar. Diziam que era exagero do povo, mas em Macondo — ou em qualquer cidade que se parecesse com ela — o exagero era só outra forma da verdade.
Joanna chegou numa terça-feira de calor imóvel, trazendo consigo um perfume de frutas maduras e perigo doce. Morena, bela, sensual sem esforço, caminhava como quem já tinha sido desejada antes mesmo de nascer. Não pedia licença ao mundo: atravessava-o. E o mundo, educadamente, se abria.
Foi Juan quem a viu primeiro, parado na porta do bar, segurando um copo de aguardente que já havia esquecido de beber. Quando seus olhos se cruzaram, algo se deslocou no eixo da tarde. Um cachorro uivou sem razão. Um copo rachou sozinho.
Joanna sorriu como quem reconhece um destino antigo.
O amor entre eles não foi rápido. Cresceu como planta em quintal descuidado: ninguém percebeu quando começou, mas logo já tomava tudo. Conversavam horas sem dizer o essencial. Riam antes da piada. Sabiam-se.
Na primeira vez em que Juan, tomado por uma estranha urgência, foi urinar atrás da casa, algo inesperado aconteceu: de sua urina saíram borboletas amarelas, ainda molhadas de luz, que subiram aos céus como pensamentos libertos. Juan ficou parado, calado, compreendendo sem entender. Joanna, que observava de longe, não se espantou. Apenas disse:
— Então é isso que você carrega.
Quando finalmente se tocaram — não com as mãos, mas com a respiração, com a aproximação inevitável dos corpos — a terra tremeu. Levemente no começo, como um aviso. Depois, com a certeza de quem reconhece um acontecimento necessário. As paredes rangeram. Um quadro caiu. O sino da igreja tocou fora de hora.
Diziam que a cada vez que o amor deles se completava, a cidade sofria pequenos terremotos. Nunca destrutivos. Eram tremores de ajuste, como se o mundo precisasse se reorganizar diante de tamanha intensidade.
Joanna dormia ao lado de Juan com a tranquilidade de quem encontrou abrigo. Juan acordava com a sensação de que seu corpo havia aprendido uma nova língua. Não falavam de futuro. Viviam-no.
Quando Joanna partiu — porque em cidades assim sempre há partidas —, as borboletas continuaram aparecendo, mas agora pousavam nos ombros de Juan, como cartas que nunca seriam enviadas. E a terra, estranhamente, nunca mais tremeu do mesmo jeito.
Ainda hoje, quem passa pela velha casa jura sentir um leve abalo no chão, seguido de um perfume distante e um bater de asas amarelas.
Porque certos amores não acabam.
Eles apenas mudam o modo como o mundo se move.
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