Tive a pior das catástrofes de um escritor, nasci na América do Sul. Nesse necrotério geográfico, a literatura não é arte, é atestado de óbito ou panfleto político, e eu, com meu faro para o perigo e meu desprezo pela temperança, decidi que não seria nenhum dos dois. O Brasil dos anos setenta fedia a farda suada e porão úmido; os milicos, com suas mentes de concreto armado, achavam que meus contos sobre marginais e facas de cozinha eram códigos subversivos. Eu não queria derrubar o governo, queria apenas descrever o som de um osso quebrando, mas eles não entendem a estética da violência. Quando o Dops bateu à minha porta, não esperei o café: pulei a janela com uma muda de roupa e a certeza de que a pátria é uma ficção mal escrita que não merece revisão.
Cruzei a fronteira com o medo servindo de bússola, os olhos ardendo de poeira e paranoia. O Peru me recebeu com o ar rarefeito dos Andes e o silêncio de civilizações mortas que, ao contrário dos generais brasileiros, sabiam guardar segredos. Lá, entre ruínas e chás de ervas alucinógenas que faziam o estômago revirar e a mente flutuar como um cadáver no Rímac, percebi que o povo não queria liberdade, queria milagres. A política é uma burocracia tediante, mas a mística é um negócio lucrativo. Fundei a "Irmandade do Verbo de Barro", uma seita que misturava gnosticismo barato com a promessa de que o sofrimento era apenas uma ilusão da matéria. Eu era o profeta de terno de linho, colhendo o ouro de camponeses desesperados e herdeiras europeias em busca de um sentido para o vazio de suas vidas.
O dinheiro começou a brotar como fungo em parede úmida, e com ele veio a necessidade de um palco maior, um lugar onde o capital não fosse pecado, mas virtude. Emigrei para os Estados Unidos com o passaporte forjado e os bolsos cheios de dólares lavados no sangue de cordeiros andinos. Nova York me aceitou como aceita qualquer charlatão com boa dicção e uma história exótica para contar nos coquetéis do Upper East Side. Deixei a túnica de profeta no aeroporto e vesti o figurino do intelectual sul-americano exilado, a vítima de luxo que os americanos adoram adotar para aliviar a culpa imperialista. Publiquei livros que eram verdadeiros manuais de cinismo disfarçados de denúncia social, e a crítica, essa horda de cegos, me chamou de a voz dos desvalidos.
Fiquei rico, obscenamente rico, e a fama veio como uma ressaca de uísque caro: inevitável e um pouco nauseante. Meus livros eram vendidos em aeroportos e discutidos em universidades, enquanto eu, do meu loft no SoHo, observava a miséria do mundo através da lente de um telescópio de ouro. O sucesso literário é uma forma refinada de prostituição onde o autor vende a própria alma em capítulos, e eu era o melhor cafetão de mim mesmo. Enquanto meus compatriotas eram torturados ou morriam de fome em filas de hospital, eu discutia contratos de tradução e royalties com agentes literários que tinham dentes mais brancos que a consciência. A literatura, para mim, tornou-se o que sempre deveria ter sido: um meio de garantir que eu nunca mais tivesse que tocar na sujeira que descrevia.
Agora, acabo meus dias em uma casa de vidro no Sul, olhando para esse povo que carrega a miséria como uma herança genética. Escrevo relatos viscerais sobre a fome, a violência urbana e a decadência moral da nação, e cada adjetivo bem colocado me rende mais alguns milhares de rendimentos mensais. Minha preocupação com o "povo" termina no ponto final de cada parágrafo; o que me importa de fato é o saldo da minha conta na Suíça e a temperatura do meu vinho. Olho para a rua e vejo os vira-latas e os mendigos, e em vez de piedade, sinto apenas a satisfação técnica de saber que eles rendem ótimas metáforas. A maior dádiva de um autor não é a imortalidade da obra, é o conforto absoluto que o desespero alheio, quando bem narrado, pode proporcionar ao seu bolso.
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