Poemas de amor, paixão e dor — em travessia
I. Prólogo — A Voz que Desperta
Nasço do pó que ama.
Não grito: germino.
O coração aprende a
falar quando aceita o silêncio.
II. O Jardim Refeito
Replantei o jardim com as mãos feridas. A terra reconheceu meu nome pela sede.
Nem toda flor pede retorno. Algumas florescem para ensinar a perda.
III. Cidade com Lua
A lua atravessa a cidade como uma carta sem endereço. Prédios mastigam seu leite frio.
Procuro teu rosto nos vidros, nos trilhos, no cansaço das ruas.
A cidade ama de passagem. Eu, não.
IV. Norte
Vou para o norte com o sol nas costas como um perdão inacabado.
Levo o que não coube em nós: ventos, mapas, sementes.
O amor aprende a viajar quando não pode ficar.
V. Corpo em Vigília
O corpo guarda o que a boca cala.
Há um calor que não é pedido, é memória.
Amar é vigiar a chama sem tocá-la.
VI. O Relógio Partido
O tempo não anda: confessa.
Cada segundo diz — foi verdade.
O amor não dura. A verdade, sim.
VII. Trem Noturno
O trem leva nomes, traz ecos.
Fico na plataforma aprendendo a ficar.
Partir é um verbo fácil. Difícil é permanecer inteiro.
VIII. Carta à Dama
Magnífica dama, tome este livro.
Não é oferenda: é resto.
Aqui repousa meu amor sem moldura, meu erro fiel.
IX. Uivo
A noite me ensinou outra língua.
Não chamo: resisto.
O amor, quando ferido, ainda canta.
X. Coração Aprendido
Meu coração não se quebrou.
Alargou.
Sofrer foi o método. Amar, o resultado.
XI. Perdão
Perdoar não apaga.
Clareia.
O amor descansa quando deixa de cobrar.
XII. Jardim de Primavera
A primavera não pergunta quem partiu.
Ela abre.
Aprendi: o amor pode acabar e ainda assim ensinar a nascer.
Epílogo — Vigília
Fico de pé na borda do que fui.
Não espero. Cultivo.
O amor continua.
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