Picasso pinta o tempo
como quem quebra um espelho
e sorri do próprio corte.
O fim não acaba:
ele se dobra,
vira esquina,
vira começo outra vez.
Há um azul antigo
que atravessa o século
como um violão esquecido no quarto,
esperando dedos novos.
O tempo passa
mas passa cantando,
desafinado de propósito.
O amor não aprende a morrer.
Troca de roupa,
muda de nome,
volta com outro sotaque
e a mesma fome.
É velho e recém-nascido
na mesma respiração.
Picasso sabia:
o rosto não é um só,
o corpo é muitos,
o desejo é cubista.
Amar é ver de lado,
é aceitar o olho fora do lugar
como quem aceita o mundo.
E as estrelas —
ah, as estrelas —
não explicam nada,
mas piscam.
São bilhetes curtos do infinito
dizendo:
“continua”.
Tudo acaba
para continuar melhor.
Como a noite que ensaia o dia,
como a tela em branco
que já sonha cor.
E no meio disso tudo
— tempo, amor, estrela, pintura —
a vida segue
torta, linda,
impossível de consertar.
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