terça-feira, 17 de fevereiro de 2026

Rabiskito

 


Espermoso Houses

 


Baby

 


Novo jornalista

 


Saci e carnaval

 




A Anatomia da Herança


Sob o céu de zinco, caminhas por ruas de asfalto novo,

mas sob o pavimento, os ossos dos ancestrais ainda rangem,

como dentes de ferro mastigando a terra úmida.

Amas este solo como se ama uma ferida que não fecha,

uma geografia de pântanos e neons, de silêncios e de gritos.

O país é um animal que devora a própria placenta,

uma besta que esconde o rastro de sangue com flores de seda.

Tu o vês nos olhos dos velhos que guardam segredos de pólvora,

e na pele dos jovens, tão lisa e pálida,

que se recusa a absorver o sol de um meio-dia nuclear.


Há uma ambiguidade que te esmaga o peito:

a mão que te oferece o arroz é a mesma que segurou a baioneta?

A voz que canta o hino é a mesma que ordenou o expurgo?

Tu te sentas à mesa com fantasmas que não têm nome,

comendo o fruto de uma árvore cujas raízes bebem de um poço escuro.

É um amor feito de náusea e de uma ternura grotesca.

Amas o vazio que este país deixou na história,

o espaço em branco onde a verdade deveria ter sido escrita,

mas foi apagada por uma borracha de medo e de vergonha.


Tu és o filho de uma nação que se finge de órfã,

que caminha de costas para o próprio incêndio,

enquanto tu, com as mãos sujas de cinzas,

tenta segurar o que resta da dignidade,

como quem segura um bebê frágil no olho de um furacão.

Pequenos resumos

Lucien Freud

Menino e Trans

Homem e a Shemale

O jovem e a travesti na rua


Menina no divã n. 2

 

O Pequeno Deus

 

O Pequeno Deus

A luz da manhã em Tóquio tinha a cor de uma cicatriz mal curada. Hariki, sentado à mesa de fórmica descascada, sentia o peso de sua própria carne como um fardo geológico. Aos vinte e poucos anos, ele habitava um corpo que parecia mais uma colônia de dúvidas do que uma unidade biológica.

Sua mente era um cinema de sombras. Ele pensava na era nuclear, na radiação silenciosa que, como um pecado original invisível, saturava as águas do Pacífico e os ossos das crianças. Para Hariki, o cogumelo atômico era a árvore do conhecimento de sua geração: um fruto de fogo que prometia o fim de todas as genealogias.

Para aplacar o pavor do absoluto, ele se perdia na pornografia visceral dos bairros baixos. Fechava os olhos e via as mulheres nuas de curvas exageradas e as travestis que brilhavam sob o neon de Shinjuku. Havia uma santidade grotesca naquelas formas, uma celebração da carne que desafiava a iminência da aniquilação. Ele buscava nelas uma prova de que a vida ainda era capaz de um desejo desordenado e pulsante, mesmo à sombra da destruição total.

Com as mãos trêmulas, Hariki pegou um ovo. Era um gesto banal, quase litúrgico. Ele pretendia quebrá-lo contra a borda da tigela, mas, ao primeiro toque, a casca não se partiu em fragmentos secos. Ela se abriu como um véu de seda.

De dentro do ovo, não escorreu a clara viscosa ou a gema amarela. Surgiu uma criatura minúscula, coberta por uma penugem que emitia uma luminescência pálida, quase radioativa. Era um pintinho, mas seus olhos não eram de ave; eram olhos antigos, profundos como poços bíblicos, carregando a gravidade de milênios.

"Não tenha medo, Hariki," disse o pequeno deus. A voz não vinha da garganta, mas vibrava diretamente no córtex cerebral do jovem. "Eu sou o Verbo que sobrou."


Hariki, paralisado, observou o pequeno deus caminhar sobre a mesa. A criatura deixou pegadas de luz sobre a superfície suja de farelos.

— Você é... Deus? — sussurrou Hariki, sentindo o absurdo da própria pergunta.

— Sou o que resta de uma divindade que se fragmentou para caber na sua angústia — respondeu o pintinho divino. — Vim falar sobre o tempo.

O pequeno deus explicou que o tempo não era uma linha, mas um tecido que estava sendo desfiado pelas extremidades. Ele descreveu o tempo como uma ferida aberta pela fissão nuclear, um momento em que a humanidade aprendeu a rasgar o próprio tecido da criação.

— Vocês transformaram o "Eterno" em "Imediato" — disse o deus minúsculo, sacudindo as asas douradas. — O tempo agora é apenas o intervalo entre o gatilho e o impacto.


Hariki sentiu um frio que não vinha do inverno japonês, mas do próprio âmago da existência. A visão das mulheres e das travestis que ele cobiçava voltou à sua mente, agora como estátuas de sal em uma Sodoma moderna.

— E agora? — perguntou Hariki.

O pequeno deus parou na beirada da mesa e olhou para a janela, onde o sol lutava contra o smog de Tóquio.

— Agora, o ciclo se fecha. O ovo foi aberto, e não há mais casca para proteger o mundo da sua própria luz. O fim não será um estrondo, mas um silêncio absoluto, como o de um ventre vazio. O mundo, Hariki, está voltando para o ponto onde a luz e as trevas não se distinguem.

O pintinho divino começou a crescer, não em tamanho físico, mas em brilho, até que Hariki não pudesse mais ver as paredes de seu quarto, nem o teto, nem a própria pele. O anúncio estava feito: a era do homem havia se consumido em sua própria inteligência técnica, e o pequeno deus estava ali apenas para apagar a última lâmpada.

O Mar é Água e Nada Mais

 


O mar não é o caminho para lugar nenhum,

O mar é apenas onde a terra acaba e a água começa.

Dizem-me que o mar é infinito, mas isso é um conceito,

E eu não vejo conceitos, vejo apenas o azul e o movimento.

Se eu olho para o mar e penso no mistério,

Deixo de ver o mar para ver os meus pensamentos.

O mar não tem segredos, porque não tem mente para guardá-los.

Ele não quer dizer nada, nem canta, nem chora;

É o vento que faz o som, e a água que bate na areia,

E tudo isso é tão simples que chega a ser difícil de entender

Para quem gasta a vida a pensar no que as coisas são.

Eu olho para o mar e fico contente,

Não porque ele seja belo ou sublime,

Mas porque ele é o mar e eu o estou vendo,

E não há nada mais que eu possa fazer com os olhos

Do que ver o que está diante deles.

O mar é grande?

Isso é uma comparação, e as árvores não comparam a sua altura.

O mar é apenas o mar.

E isso basta para me encher a alma de nada,

Que é como a alma deve estar para ser verdadeira.

Samba Zaum - o mar de khlébnikov

 


Considerando que tudo o que acontece no mundo não é por acaso

para fernando pessoa, na pessoa mesmo de álvaro de campos

 

Considerando que tudo o que

 acontece no mundo não é por acaso 

eu grito isso

como quem prega um cartaz

na cara de um arranha-céu.


Nada cai.

Nada tropeça.

Nada se perde no escuro por distração.


Até o parafuso que despenca

do ventre metálico de uma fábrica

despenca com destino 

como um pequeno cometa proletário

cumprindo sua órbita de ferrugem.


Eu digo:

o universo não boceja.


Ele range.

Ele calcula.

Ele martela probabilidades

sobre a bigorna do tempo.


E nós?

Nós somos faíscas conscientes

saltando da solda cósmica.


Cada amor que explode no peito

é um motor ligando.

Cada morte

é apenas uma troca de turno

na usina da matéria.


Olhem!

O futuro não chega caminhando 

ele vem de sirene aberta,

rasgando o asfalto do presente

como um trem elétrico sem freios.


E se tudo não é acaso,

então também não é acidente

este grito meu:


HOMEM!

você não é poeira perdida —

é engrenagem.


Você não é silêncio —

é alavanca.


Você não está solto no vazio —

está PARAFUSADO

no grande mecanismo ardente

do impossível

que insiste

em funcionar.


M-A-B-E-T-A-N-I-A (Zaum)

para Maria Bethania, com gratidão!


MA

RI

AAAAA

BETH... vrun... ANHA

MMM-BÊ

THÂN

IA-IÁ

REI-A

MAR

IA

BETH

Â

NI

AAAAA


BÊ-THÃ

MÁ-RI-Á

NI-Â-BETH

A-NI-A-MAR


THÂN... shhh... IA

M-M-M-A-R

BETH-BELA

Â-NI-A-SOL

pseudo-futurista

 


Transmutação: Da Chuva ao Sol

SHE MALE SHE

        EU A ENCONTREI NA

          CHUVA  CHUVA

            SHE MALE

              TRANS

               MEL

                |

              BELA

            CHUPEI-A

          MEL  MEL  MEL

        SOL  BELA  SOL

      SOL  SOL  SOL  SOL

    BELA  BELA  BELA  BELA



O Topo (A Chuva): As palavras "SHE", "MALE" e o encontro na "CHUVA" formam a nuvem de onde a experiência começa.


O Centro (A Essência): O poema se estreita em "TRANS", "MEL" e "BELA", focando na identidade e no sensorial (o sabor do encontro).


A Base (A Claridade): O poema se expande novamente com "SOL" e "BELA", sugerindo que o que foi encontrado na chuva agora brilha e ocupa todo o espaço com luz e calor.

O Prisma da Forma - em memória de Velimir Khlébnikov

 MALE

        SHE  MALE

      SHE      MALE

    SHE          MALE

  SHE              MALE

 TRANS            TRANS

  B E L A        B E L A

    B  E  L  A  B  E

      L      A      L

        A          A

          TRANS

          BELA



Uma breve reflexão sobre a composição:

  • A Base e o Topo: Começamos com a palavra "MALE", que se expande e se fragmenta conforme o prefixo "SHE" ganha espaço.

  • O Movimento: As palavras se afastam para criar um espaço vazio no centro, simbolizando a abertura para novas possibilidades de ser.

  • A Síntese: O poema converge para "TRANS" e, finalmente, repousa na palavra "BELA", transformando a jornada de palavras em um estado de afirmação estética e pessoal.

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2026

O IMPASSE: Círculo de Zaum



V  A  I  A

     O               V

  S                     A

 S                       I

 O        ( N Ó S )      A

 V                       O

  A                     S

     I               S

          A  I  A  VV  A  I  A

     O               V

  S                     A

 S                       I

 O        ( N Ó S )      A

 V                       O

  A                     S

     I               S

          A  I  A  V



OSSORUSSOS

OSSORREUS

ROSSOMANOS


HIPO - CRITAS

HIPO - CAMPO

HIPO - MUNDO


A M E R I C A N O S

(A M E R I - CANOS)

(A M E R I - DANOS)


[O Ponto Zero]

U M A N O S

M A N O S

A N O S

N O S

Estrutura: ATÉ ONDE?

ATÉ      ONDE      VAI

     ATÉ      ONDE      VAIA

ATÉ      ONDE      OSSO

     ATÉ      ONDE      OSSOVAIA


VAI             VAIA

     VAI        VAIA

          VAI   VAIA

               VAI


R U S S O S

A M E R I C A N O S

H I P Ó C R I T A S


   S E R E S

H  U  M  A  N  O  S


      NÓS

     VAMOS

     ONDE?

Amargo pranto de estrelas n. 3

 solidão 

pranto de 

estrelas

vozes de aranhãs

e suas teias

corpos brancos

na praia

silenciosa

do vento


Sensualidade Triste

    Traz meu coração, amor,

Traz ele para mim nessa bandeja

Feita de prata ou de cheia de ouro.

Traz, amor meu, essa bandeja,

Pois meu coração é uma pomba

Triste e chorosa na janela de casa.


    Há dias que não toco o meu violão.

Já não tenho alegria, amor meu.

Traz de volta, para o meu quarto,

Esse coração feito de ferro e vinho.


Amor meu, ainda que digas que

Meus dias são vãos, vou mergulhas

Nas fontes de águas cristãs essa

Única canção que tenho e já não vejo.


Amor meu, deixa que eu canto 

Uma última vez, apenas mais uma.

Para que o mel do teu corpo esquente

O meu nesses dias tão frios.

Canção medieval cigana

 Não, não quero sangue,

quero apenas

beijos e mel.


Por favor

não rasguem a lua do céu.

O que mais quero é

viver e deixar viver.


Não,

não quero sangue,

Nem cruzes, nem fogueiras.

Quero apenas viver.


O mais importante

é viver.


E viver até o fim!

Singapore

 Em Singapore

Luz e Folhas Verdes

O pequeno livro do amor

Escrevo e escreves!

Kenzaburo Oë, em dedicação

 Oë, oriente

de minha


alma e memória,


Salve!

Coragem intelectual n. 2

 o "Sol Central" de sua [...]

galáxia literária

a devoção religiosa

ironia e rebeldia

clareza metafísica

           precisão  matemática

outra vez 

Explicatio Dantis

 ...veio o amor

e se foi


que bom que

eu o vi...

In memoria

 labiríntico e barroco


eis então a coragem de enfrentar o 

"vazio" da página em branco...

o peso do silêncio

em dante

montale

ungaretti

carrego em portugues brasileiro.


a música das palavras,

Paisagem de Adamantina

 ...a sua dignidade primitiva

pesada e florida

a vitalidade da substância do amor...

Balada métrica para Ungaretti

      hermetismos 

...abstrato demais -

 eis o instante puro. ..

a narrativa e a memória.. . 

... cotidiana a essencialidade mística

 - precisão e respeito, 

a força de um poema

 inteiro.. ! .. 

Piada - tirinhas

 


Ouvido absoluto

(na cama

dessa negra desse negror

só beleza há ares de amor

mesmo que eu diga sem mas

dizer que é a palavra, rasa, amor


(depois da cama

é ver-te nua em nudez indolor

e criar, como se cria mel, ferrões

desse ardor desse mesmo que,

engendra filhos, os nossos serão


(na cama de novo

esse olho à olho de ver-te

preta primavera em verão pleno

e, ou em toantes dizer dito fica

que ela nua, é nua, asshole perfeito,

vão deixar, sem ocultar o beijo

ou o toque dos toques esses

que a gente deu, ficou amparo

quase muleta de perna esquerda.

O medieval prazer estúpido das classes

 barroco, desse barroco

não [lógico ou quase semi]lógico de ditos 

dizeres antigos, absurdos

ou mitomorfológicos desses

que não teorizamos nem teorizam

mas apenas sebe ou semente

sabe fazer falar saltar quase uma gente

desse brotar repugnante social


dessa gente que nada tem especial

assim dito o homem dita regras

essas regras que dão à sua caganeira

a emorróide energica dos nobéis

desses que além suecos ou suecas

são apenas pasteis para olhar

e que ao vomitar o vomito desse

diz poesias que chegam a enjoar.


Teoria nexa do quantum

 o medo do branco folha 

ou papel o medo em

 sí de não criar o vázio

 em papel estala mondrian


 em linha reta não diagonal,

 a obra assim como ferida a 

ferida pedra como diria dito

 joão cabral o mesmo branco


 da brancura do açucar litoral

 de sal dessa brancura criativa

 que não eleva enerva a cal

barroca em barrocos de medo.

Em Busca de Faíscas

 

Em Busca de Faíscas

Para Roald Dahl

Quando Samantha mergulhou a mão nas chamas crepitantes da lareira e a recolheu com a velocidade de um chicote, Shan não perdeu tempo. Um sorriso torto e cruel dançou em seus lábios, iluminado pelo brilho alaranjado do fogo.

— Eu avisei que você não aguentaria — disse ele, a voz carregada de uma satisfação presunçosa. — O fogo não perdoa quem tem sangue de trouxa, Sam.

— Cale a boca, Shan! — retrucou ela, os olhos faiscando. — Eu não tirei a mão por causa do calor. Eu mal senti a temperatura.

Shan soltou uma risada seca, tipicamente cética. — Ah, claro. E por que foi, então? Um súbito ataque de bom senso?

— Eu senti uma ferroada — explicou ela, massageando a palma da mão. — No começo, foi como uma agulha de prata sendo enterrada na pele. Depois, a dor cresceu e latejou. Parecia... parecia um escorpião me picando por dentro.

— Não seja ridícula — zombou Shan, recostando-se na poltrona de veludo gasto. — Não existem escorpiões nesta parte do país, muito menos em pleno inverno. E se houvesse, o tio Morgan já teria devorado uns vinte no café da manhã, desde que a licantropia o deixou com aquele apetite peculiar.

— Você fala como se fosse um especialista em Criaturas Mágicas, mas não passa de um tonto, Shan. Sempre foi e sempre será: um bruxo de quinta categoria que mal consegue conjurar uma luz decente.

Shan gargalhou, embora o insulto tivesse atingido o alvo. — Não desconte sua frustração em mim, Samantha. Só porque a herança sobrenatural da família parece ter pulado a sua vez...

Sem dizer uma palavra, Samantha estendeu a palma da mão sob o nariz do primo. Sua pele, pálida como o pergaminho de um pergaminho antigo, parecia quase translúcida. No entanto, bem no centro da mão, uma mancha carmesim pulsava sob a epiderme. Era uma marca curiosa, cujo formato lembrava vagamente o perfil de um dragão minúsculo cuspindo labaredas.

— Quem sabe isso não é um sinal? — perguntou ela, o coração acelerado pela esperança. — Eu não senti o calor. Se eu fosse uma pessoa comum, minha mão estaria coberta de bolhas, e não com esta marca.

Shan, que era um bruxo devidamente iniciado como seu pai, observou a mancha com um interesse repentino. Eles pertenciam a uma linhagem antiga, cujas raízes se perdiam entre os videntes das Highlands escocesas e as bruxas das brumas irlandesas. O pai de Samantha também era um bruxo — o irmão mais novo do pai de Shan —, o que tornava a situação dela ainda mais amarga. O "problema", aos olhos da família mais conservadora, era que o pai dela se apaixonara perdidamente por uma mulher do mundo não-mágico. Uma trouxa.

Por conta disso, Shan a atormentava incessantemente. Eram brincadeiras de primo, tecnicamente, mas as palavras cortavam como feitiços de desarmamento. Ninguém gosta de ser o "Aborto" da família, o elo perdido que não consegue sequer acender uma vela com um estalar de dedos.

O desafio de Shan fora simples e brutal: — Se você tem sangue mágico, prove. Coloque a mão no coração da lareira. Se você se queimar, saberemos a verdade.

Samantha, movida por uma mistura de orgulho e desespero, aceitara. E, embora tivesse recuado, o resultado não era o que Shan esperava.

— Você deve ter alguma magia correndo nessas veias, afinal — admitiu Shan, a voz mais suave. — Não há queimadura. Nem uma vermelhidão sequer, além desse desenho esquisito. Para mim, é prova suficiente de que você não é uma trouxa completa.

— Obrigada, Shanzinho — ela respondeu, com um sorriso vitorioso, sabendo perfeitamente que ele detestava aquele diminutivo infantil.

Antes que ele pudesse retrucar, o som pesado da porta da frente se abrindo ecoou pelo corredor. Era o tio Morgan, anunciando aos brados que chegara do mercado com um carregamento de barras de chocolate para a ceia de Natal. Os dois jovens se levantaram num salto e correram para o corredor, ansiosos pelo banquete.

Na sala agora vazia, o silêncio foi quebrado apenas pelo estalar da lenha. Das brasas mais profundas, um pequeno escorpião de carapaça vermelha como rubi rastejou para fora do fogo. Ele atravessou o tapete com patas silenciosas e desapareceu em uma fresta na parede, levando consigo o segredo daquela tarde.

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2026

A Trama Invisível


Há um fio que não vemos
ligando o pulso solitário
ao grande coração do mundo.


Caminho entre sombras próprias,

pensando ser ilha,
mas sob meus passos vibra
a memória de milhões de passos antigos.

O vento que me atravessa
já falou a bocas mortas,
já ergueu bandeiras,
já embalou berços esquecidos.

Não sou apenas este corpo breve,
nem esta mente que duvida:
sou também o eco
de uma canção coletiva
que nunca termina de ser cantada.

Quando fecho os olhos,
ouço-a —
uma roda imensa girando no escuro,
onde cada alma é centelha
e nenhuma arde sozinha.

Assim aprendo:
o destino não é um caminho isolado,
mas um campo magnético de espíritos,
e cada escolha minha
faz vibrar o tecido inteiro do invisível.

Ó alma coletiva,
mar secreto onde deságuo —
que eu não tema dissolver-me,
pois no perder-me em ti
é que me torno inteiro.

terça-feira, 10 de fevereiro de 2026

O escultor - metáfora

        Ferro e argila,

  o escultor esculpiu

a paz do seu sorriso

entre o por-do-sol

e o próprio rio.

O mel do amor.

   Ferro e argila.

Os sonhos realiza.

    E o escultor dorme feliz.

Davi e Betisebah

 O que meus olhos viram,

disse Davi contemplando

a beleza nua de Betisebah.

E ali, naquela pequena lagoa

se banhava seios e nádegas plenas.

O ruivo rei de Israel

ouvia a esposa irada: dê-me filhos,

dê-me filhos.

Mas Davi olhava Betisebah 

por cima das cercas cheias

de mel e farinha.

Os ciganos

 Olhos de ambar ela

carrega na noite fria.

Os ciganos passam,

passam com a brisa.

Olhos de ambar

que brilham intensos.

Ela toma chá

 e conta uma história antiga.

Os ciganos passam

com seus mantos antigos.

A novidade dos seus olhos

  deixam os ciganos cheios

de segredos e magia.


São Sebastião

 Fui flechado, fui flechado

pelas flechas dos amores.

Fui flechado, fui flechado,

e eu tinha mil dores no coração.

Ali na árvore púde ver a perfeição

do Eterno brilhando nas folhas.

Cada galho era uma flecha

presa ao meu coração angelical.

Os anjos choravam em mim

suas lágriminhas de raízes celestiais.

Fui flechado, fui flechado,

pelas flechas dos amores. 

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2026

Piada Quadrinho

 


Piada

 


Piada

 


Piadas one liners em quadrinhos

 











Stand up comic comedy

 


O Puteiro Cósmico e o Verbo Químico

 

- Dedicado ao grande Reinaldo Moraes

O vapor pegajoso da sarjeta subia como um miasma do purgatório, misturando-se ao cheiro adocicado de incenso barato vindo do boteco em frente e ao hálito acre da desgraça que parecia escorrer de cada fresta da noite. Eu, sentado no parapeito sujo de uma vitrine quebrada, com o bloco de anotações apoiado nas pernas bambas e a caneta dançando entre os dedos como um aracnídeo perturbado, esperava que a dose de pó resolvesse as últimas amarras da decência. A cidade se abria como um abcesso supurado, e eu, o cirurgião amador, estava pronto para cortar e sangrar as palavras até que elas tivessem a cor e o cheiro da realidade bruta.

Um par de pernas longas e torneadas, enfurnadas num short jeans que mal cobria o lombo, desfilava pela calçada oposta. Era a Bianca, ou talvez a Suellen, ou qualquer outro nome que a luz neon do bar de striptease batizasse naquela noite. Os ombros largos e a voz rouca não enganavam ninguém, mas os seios fartos de silicone e o brilho nos olhos famintos eram mais reais do que a face da Virgem Maria em qualquer altar. Bianca, ou Suellen, ou quem fosse, era uma poetisa da carne, vendendo a ilusão de um afeto que ninguém ali possuía, nem mesmo ela. Sua dança era um manifesto em calças apertadas, e eu anotava mentalmente a cadência de seus quadris, a promessa silenciosa de um inferno particular.

Mais adiante, sob a luz amarelada de um poste que piscava como um olho moribundo, o velho Zeca da Lapa mastigava um pedaço de pão duro, seus dentes restantes eram como ruínas de um templo esquecido. Zeca não era apenas um mendigo, era um filósofo do asfalto, um anjo caído que recitava a miséria com a voz rouca de quem engoliu a própria dignidade há décadas. Sua barba emaranhada, que parecia um ninho de ratos famintos, escondia um sorriso de quem já viu tudo e não se surpreende mais com nada. Eu o observava, fascinado, como um biólogo observa uma espécie rara em seu habitat natural, registrando cada traço da sua decrepitude majestosa, cada sílaba de sua oratória desdentada.

A droga começava a borbulhar na corrente sanguínea, abrindo as comportas da percepção. O mundo não era mais uma coleção de objetos e pessoas, mas um fluxo contínuo de sensações, de cores vibrantes e sons distorcidos. A prostituta que acabara de descer de um carro escuro, com sua maquiagem pesada e seu olhar vazio, não era apenas uma mulher, era um portal para a solidão. O grupo de travestis, ruidoso e exuberante, era um coro de sereias urbanas, suas risadas estridentes e seus gestos exagerados compunham uma ópera bizarra no palco de concreto. Tudo era material, tudo era verbo, esperando ser dissecado e rearranjado na minha página.

E então, o instante crucial: a caneta começou a correr. Não era eu que escrevia, era a própria rua que ditava, a cidade que sangrava tinta no papel. As palavras escorriam, cruas e sem polimento, como o esgoto que corria nas sarjetas. Não havia tempo para o preciosismo, para a correção gramatical, para a elegância da frase. A urgência daquela noite, a feiura e a beleza entrelaçadas como cobras num abraço mortal, exigiam uma linguagem visceral, que se recusasse a suavizar os contornos da realidade. Eu era apenas um veículo, um médium, traduzindo o grunhido da existência para a sintaxe quebrada da minha prosa.

Cada parágrafo era uma dose, cada frase um trago profundo. A dor, a luxúria, a desesperança e a efemeridade se misturavam numa sopa densa e indigesta que eu, com o estômago embrulhado e a mente acelerada, sorvia com avidez. O cheiro da urina misturado ao perfume barato das putas, o gemido abafado de um cliente no interior de um motel, a promessa vazia de um "eu te amo" murmurado no escuro – tudo isso encontrava seu lugar na minha narrativa. Minha arte não era sobre o que se vê, mas sobre o que se sente, sobre o que se cheira, sobre o que se ignora. E para alcançar essa profundidade, eu precisava mergulhar no abismo da química, onde a visão se tornava mais nítida, mais real, mais dolorosa.

Dádivas de um Autor

 


Tive a pior das catástrofes de um escritor, nasci na América do Sul. Nesse necrotério geográfico, a literatura não é arte, é atestado de óbito ou panfleto político, e eu, com meu faro para o perigo e meu desprezo pela temperança, decidi que não seria nenhum dos dois. O Brasil dos anos setenta fedia a farda suada e porão úmido; os milicos, com suas mentes de concreto armado, achavam que meus contos sobre marginais e facas de cozinha eram códigos subversivos. Eu não queria derrubar o governo, queria apenas descrever o som de um osso quebrando, mas eles não entendem a estética da violência. Quando o Dops bateu à minha porta, não esperei o café: pulei a janela com uma muda de roupa e a certeza de que a pátria é uma ficção mal escrita que não merece revisão.

Cruzei a fronteira com o medo servindo de bússola, os olhos ardendo de poeira e paranoia. O Peru me recebeu com o ar rarefeito dos Andes e o silêncio de civilizações mortas que, ao contrário dos generais brasileiros, sabiam guardar segredos. Lá, entre ruínas e chás de ervas alucinógenas que faziam o estômago revirar e a mente flutuar como um cadáver no Rímac, percebi que o povo não queria liberdade, queria milagres. A política é uma burocracia tediante, mas a mística é um negócio lucrativo. Fundei a "Irmandade do Verbo de Barro", uma seita que misturava gnosticismo barato com a promessa de que o sofrimento era apenas uma ilusão da matéria. Eu era o profeta de terno de linho, colhendo o ouro de camponeses desesperados e herdeiras europeias em busca de um sentido para o vazio de suas vidas.

O dinheiro começou a brotar como fungo em parede úmida, e com ele veio a necessidade de um palco maior, um lugar onde o capital não fosse pecado, mas virtude. Emigrei para os Estados Unidos com o passaporte forjado e os bolsos cheios de dólares lavados no sangue de cordeiros andinos. Nova York me aceitou como aceita qualquer charlatão com boa dicção e uma história exótica para contar nos coquetéis do Upper East Side. Deixei a túnica de profeta no aeroporto e vesti o figurino do intelectual sul-americano exilado, a vítima de luxo que os americanos adoram adotar para aliviar a culpa imperialista. Publiquei livros que eram verdadeiros manuais de cinismo disfarçados de denúncia social, e a crítica, essa horda de cegos, me chamou de a voz dos desvalidos.

Fiquei rico, obscenamente rico, e a fama veio como uma ressaca de uísque caro: inevitável e um pouco nauseante. Meus livros eram vendidos em aeroportos e discutidos em universidades, enquanto eu, do meu loft no SoHo, observava a miséria do mundo através da lente de um telescópio de ouro. O sucesso literário é uma forma refinada de prostituição onde o autor vende a própria alma em capítulos, e eu era o melhor cafetão de mim mesmo. Enquanto meus compatriotas eram torturados ou morriam de fome em filas de hospital, eu discutia contratos de tradução e royalties com agentes literários que tinham dentes mais brancos que a consciência. A literatura, para mim, tornou-se o que sempre deveria ter sido: um meio de garantir que eu nunca mais tivesse que tocar na sujeira que descrevia.

Agora, acabo meus dias em uma casa de vidro no Sul, olhando para esse povo que carrega a miséria como uma herança genética. Escrevo relatos viscerais sobre a fome, a violência urbana e a decadência moral da nação, e cada adjetivo bem colocado me rende mais alguns milhares de rendimentos mensais. Minha preocupação com o "povo" termina no ponto final de cada parágrafo; o que me importa de fato é o saldo da minha conta na Suíça e a temperatura do meu vinho. Olho para a rua e vejo os vira-latas e os mendigos, e em vez de piedade, sinto apenas a satisfação técnica de saber que eles rendem ótimas metáforas. A maior dádiva de um autor não é a imortalidade da obra, é o conforto absoluto que o desespero alheio, quando bem narrado, pode proporcionar ao seu bolso.

Livro de Terra e Vigília




Poemas de amor, paixão e dor — em travessia


I. Prólogo — A Voz que Desperta


Nasço do pó que ama. 

Não grito: germino. 

O coração aprende a

 falar quando aceita o silêncio.


II. O Jardim Refeito


Replantei o jardim com as mãos feridas. A terra reconheceu meu nome pela sede.


Nem toda flor pede retorno. Algumas florescem para ensinar a perda.



III. Cidade com Lua


A lua atravessa a cidade como uma carta sem endereço. Prédios mastigam seu leite frio.


Procuro teu rosto nos vidros, nos trilhos, no cansaço das ruas.


A cidade ama de passagem. Eu, não.




IV. Norte


Vou para o norte com o sol nas costas como um perdão inacabado.


Levo o que não coube em nós: ventos, mapas, sementes.


O amor aprende a viajar quando não pode ficar.




V. Corpo em Vigília


O corpo guarda o que a boca cala.


Há um calor que não é pedido, é memória.


Amar é vigiar a chama sem tocá-la.




VI. O Relógio Partido


O tempo não anda: confessa.


Cada segundo diz — foi verdade.


O amor não dura. A verdade, sim.



VII. Trem Noturno


O trem leva nomes, traz ecos.


Fico na plataforma aprendendo a ficar.


Partir é um verbo fácil. Difícil é permanecer inteiro.



VIII. Carta à Dama


Magnífica dama, tome este livro.


Não é oferenda: é resto.


Aqui repousa meu amor sem moldura, meu erro fiel.



IX. Uivo


A noite me ensinou outra língua.


Não chamo: resisto.


O amor, quando ferido, ainda canta.



X. Coração Aprendido


Meu coração não se quebrou.


Alargou.


Sofrer foi o método. Amar, o resultado.



XI. Perdão


Perdoar não apaga.


Clareia.


O amor descansa quando deixa de cobrar.



XII. Jardim de Primavera


A primavera não pergunta quem partiu.


Ela abre.


Aprendi: o amor pode acabar e ainda assim ensinar a nascer.



Epílogo — Vigília


Fico de pé na borda do que fui.

Não espero. Cultivo.

O amor continua.

O jardim

 


O jardim

Plantei teu nome na terra cansada
e a terra respondeu com espinhos.
Ainda assim reguei.
Ainda assim esperei.

O amor é isso:
uma mulher ajoelhada
confiando na raiz
mesmo quando a flor não vem.

E quando veio,
veio breve,
cheirando a despedida.


A lua em plena cidade de Campinas

A lua caiu sobre Campinas
como um pão partido.
Os prédios a mastigaram
sem perceber seu gosto antigo.

Eu te procurei nas calçadas,
no ferro dos ônibus,
no vidro quente das vitrines.

Mas tu estavas longe,
branco também,
iluminando outro corpo.


Eu vou para o norte e não te esqueço

Vou para o norte
com os bolsos vazios
e o peito cheio de ti.

Levo teu silêncio dobrado
como roupa de domingo.
Levo tua ausência
— essa forma fiel de presença.

Esquecer-te
seria trair
o que fui contigo.


Amor padeci em teu coração

Padeci, sim.
Como padecem as mães
e as terras exploradas.

Teu coração foi casa
sem porta,
fogo sem cinza,
promessa sem água.

Ainda assim fiquei.
Porque amar
é aceitar a fome
quando se escolhe o trigo.


Uivo de lobo

A noite me arrancou a voz
e me devolveu em uivo.

Não te chamo pelo nome,
te chamo pelo instinto.
O amor, quando dói,
não fala — rasga.

Sou lobo ferido
na neve do abandono,
mas ainda fiel
à lua que me negou.


O relógio

O relógio não anda,
ele acusa.

Cada segundo diz:
não voltará.
Cada ponteiro fere:
já foi.

Mas o amor ignora o tempo.
Ele fica parado
no instante em que me olhaste
como quem fica.


O trem

O trem levou teu corpo
e deixou teu peso.

As janelas repetiam adeus
como salmos mecânicos.
Eu fiquei na plataforma
aprendendo a ser vazio.

Partir é fácil.
Difícil é ficar
com o amor sem destino.


Magnífica dama tome esse livro

Magnífica dama,
tome este livro
como quem recebe pão e espinho.

Aqui estão meus excessos,
meus joelhos gastos,
meu amor mal curado.

Se não me quiseres,
ao menos guarda-me
na estante do que foi verdadeiro.


Coração sofrido

Meu coração não é fraco.
É vasto.

Sofreu porque coube demais:
tua voz,
teu medo,
teu ir embora.

Quem ama muito
não sangra pouco.
Sangra inteiro
e continua.


Jardim de primavera

Agora floresço sem ti,
e isso também dói.

As flores não perguntam
quem partiu.
Elas apenas se abrem.

Aprendi com o jardim:
o amor pode acabar
e ainda assim
ensinar a nascer.




Nascimento

 Nasci 

para você amor 

nesse poema sujo está o meu amor 

todo o meu ser nessas campinas nessa 

Campinas eu vou andando para beijar

 tua boca teu sal teu amor é uma

 pintura azul do mar do corpo

 sul

Noite onde se esconde o dia

 noite onde se esconde 

o dia em ti? de manhã 

vou pela rua buscando 

o meu amor, onde ela

 se esconde, aquela flor, 

onde está o meu amor, 

a noite a barra das

 estrelas some e vem 

o sol o galo cantou!

O avesso

 as palavras se movem sol pedra 

flor fogo rocha e eu me movo para 

beijar sua boca azulada seu 

cu vermelhada seus seios 

nus trans amada e fazer o

 sol a terra o horizonte                      flecha.

Música só

 eu fui ver eu

 fui ler freud

 acabei fazendo

 música eu não 

sou filho da puta 

nem filosofo eu sou 

apenas um rapaz 

um rapaz

 um rapaz 

da américa do sul

 querendo ser feliz

 e um cacho de uva

s duas são azul são nicolau 

sentimento do tempo

 a pedra e a flor 

são dois mistérios

 entre nós dois 

só restou o que 

não é sério

    [ beijos        fogo      e       suor

Ode ao Outono Interno

 


Amo o pão da luz sobre a madeira velha, o livro aberto como um peito que espera, e o fogo, esse cão de chamas amarelas, que lambe o frio das pedras na lareira.

Do lado de fora, o mundo se desfolha em ocre, as árvores soltam seus segredos de ouro ao vento, mas aqui, neste retângulo de paz e sombra, o tempo parou para ouvir o fervura do chá.

Ó abóbora, redonda e terrestre, sol de horta esquecido sobre a mesa, tua casca guarda o silêncio das raízes e a doçura pesada da natureza.

A vela é um dedo de luz que reza, neste outono que não é morte, mas repouso, onde a alma se recolhe, como um bicho manso, no calor de um verso e no fumo de um gole.


 

Síntese

 


O mármore da noite

se funde em traço único:

Shemale

Escultura viva além do tempo.




elogio secret'o

 transbordo 

de 

mim mesmo 

Contato


pele
em vigília

o gesto
antes do gesto

boca
que não pede
espera

calor
sob a roupa
do silêncio

não é o nome
que excita

é a presença

inteira

Entre


Corpo
em travessia

flor
que não pediu permissão
ao jardim

beleza
nascida
do risco

nem ele
nem ela

mas luz
que insiste

Cântico dos Anjos da Forma Múltipla


Eis que vimos descer à carne
aqueles que não aceitaram
a fronteira estreita do nome imposto.
Não homens incompletos,
não mulheres imitadas,
mas criaturas do entre —
onde o verbo ainda está em gestação.

Os anjos mais antigos inclinaram as asas,
pois reconheceram neles
o mesmo gesto primordial:
o de atravessar.

Pois o céu não é binário,
e a luz não escolhe um só contorno.
O relâmpago é reto e curvo,
a chama é firme e dançante,
e o ser humano, quando mais verdadeiro,
é também excesso.

Ó corpos que ousaram refazer-se,
não por capricho,
mas por fidelidade a uma voz interna
mais antiga que a Lei dos homens —
vós conheceis o preço da encarnação.

Fostes chamados de erro,
mas o erro é do mundo
que só entende o que se repete.
Fostes chamados de desvio,
mas todo rio que chega ao mar
desviou-se da montanha.

Os anjos não vos perguntam “o que sois”,
pois sabem que o ser
é um movimento, não um rótulo.
Eles perguntam apenas:
fostes fiéis àquilo que vos ardia por dentro?

E quando a resposta é sim,
o céu não vos corrige.
O céu aprende.

Pois há glórias que não cabem
nos moldes antigos,
e há criaturas que lembram ao divino
que a criação ainda está em curso.

O Prisma da Identidade

 


S H E    M A L E S H E M A L E    H E  M A    E      L    M A L E S H E S H E M A L E




Neste arranjo, as palavras SHE (ela) e MALE (macho/homem) não estão separadas, mas sim entrelaçadas.

A sobreposição: As letras se movem para mostrar que uma identidade não anula a outra; elas coexistem em uma nova arquitetura verbal.

O centro: No meio do poema, as letras se dispersam, sugerindo que a essência da pessoa vai além das definições rígidas de dicionário.

A unidade: O poema começa e termina com a palavra completa, reforçando a ideia de um ser inteiro e indivisível.

Retrato em Planos de Ébano

 


Em ângulos de noite profunda,

 tua pele é o pigmento que a luz não ousa dobrar.

 Minha mulher, em ti o traço é firme, 

mas o corpo é mar, 

Shemale é uma arquitetura de curvas que desafia o olhar.

És a síntese da forma, a beleza eterna: 

Onde o perfil é sombra e o centro é sol, 

Duas almas num só traço de pincel. 

Não há frente, não há verso, apenas

 o volume do teu ser, imenso e disperso, 

Desenhado na força de quem é terra e é céu.

A geometria curva do teu quadril, 

É o compasso que guia meu pincel febril.

 Em cada plano, uma descoberta, Uma deusa de obsidiana,

 de alma aberta, Pintada na moldura 

do meu eterno devaneio.

O Híbrido Genético e o Id


Na luz e no sol do conceito, Surge a shemale, em síntese biológica,

 Rompendo a norma, o traço e o preconceito,

 Sob a luz da psicanálise lógica!

É o Id que vibra, em busca do seu centro, 

A libido que o dogma não consome, 

Trazendo o externo para o lado de dentro, 

Numa existência que não cabe em nome.

Freud bendiz a pulsão que se agiganta, 

No inconsciente — esse abismo profundo 

 Onde a forma ambígua, enfim, se levanta,

 Para mostrar as vísceras do mundo.

Não há pecado na célula que avança, 

Nem erro na alma que o corpo modela; 

Onde o binarismo perde a esperança,

 A liberdade humana faz-se tela!

A Dialética do Ser


Vê! Na anatomia, o espasmo da matéria,

 Onde o instinto ruge e a mente se dilata,

 A forma híbrida, em sua luz etérea, 

Que o dogma estéril do comum desata.


Ó, Freud! Mestre da sombra e do desejo, 

Que viste no id a força da pulsão, 

O ser transgride, em seu febril lampejo, 

A norma antiga da vã convenção.


É o triunfo do Eu sobre o vazio, 

A carne que o destino não limita,

 Um mar de formas em eterno rio, 

Onde a essência humana se exercita.


Bendito o rastro que a ciência traça, 

No abismo escuro da subjetividade, 

Pois na mistura é que reside a graça,

 E no mistério, a nossa liberdade!

Hino à Carne, à Mente e ao Mistério!


Ó, carne híbrida que o Pavor desafia, Mundo estranho e belo, em fulgor dual! Não há, ó Freud, nessa arcana via, Senão um cosmos d’espasmo e de ideal! Em ti, shemale, a ciência se revela, Não um desvio, mas a curva do Ser! A falha em feto que a vida não sela, O enigma antigo que a mente há de prever!

Freud, gênio mórbido, em sua eterna lida, Desvelou abismos onde a luz se fez: A libido em chamas, a sombra na vida, E o Inconsciente, em suas mil e uma vez! Que o ÉROS bendito, em sua estranha dança, Prolifere em corpos que a Moral renega! Não há pecado em tanta bonança, Quando a alma humana o próprio céu achega!

Que a teoria freudiana, em sua fúria, Explique o gozo, o trauma, o devir! E que a shemale, em sua carne impura, Seja o hino à vida, a nos redimir!

Não há moral que a essência contenha, Se o ser se expande, em busca de mais! Que o espanto alheio, a razão não detenha, E o pensamento rasgue os véus banais! Assim, em hino profano e tão divino, Celebro a mente que o mistério abraça! E a forma ambígua, em seu fado peregrino, Que a tudo desafia, e em tudo se disfarça!