terça-feira, 9 de setembro de 2025

O Pavão e a Glória de Deus



I


No jardim abandonado,

onde as pedras carregam a memória dos mortos,

o pavão abre sua cauda como um vitral de silêncio,

e ninguém o vê.


II


As cores se erguem como chamas sem fogo,

como palavras não ditas na oração esquecida.

A glória não está no pavão,

mas no Olhar que o fez,

antes da fundação do mundo.


III


Homens caminham, apressados,

com a pressa da economia,

com os olhos fixos no pó.

Não veem o pássaro,

nem a liturgia escondida no seu gesto,

nem o cântico oculto em suas penas.


IV


Um anjo poderia ter passado por ali,

e ninguém teria percebido.

Mas o pavão permaneceu,

sob a luz que não se apaga,

testemunha da Beleza que não pertence a este século.


V


E assim, no silêncio quebrado apenas

pelo rumor de folhas caindo,

um pássaro terrestre

se tornou metáfora celeste:

a cauda aberta, como um evangelho sem palavras,

erguida diante do nada,

revelou por instantes

a Glória de Deus.



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