I
No jardim abandonado,
onde as pedras carregam a memória dos mortos,
o pavão abre sua cauda como um vitral de silêncio,
e ninguém o vê.
II
As cores se erguem como chamas sem fogo,
como palavras não ditas na oração esquecida.
A glória não está no pavão,
mas no Olhar que o fez,
antes da fundação do mundo.
III
Homens caminham, apressados,
com a pressa da economia,
com os olhos fixos no pó.
Não veem o pássaro,
nem a liturgia escondida no seu gesto,
nem o cântico oculto em suas penas.
IV
Um anjo poderia ter passado por ali,
e ninguém teria percebido.
Mas o pavão permaneceu,
sob a luz que não se apaga,
testemunha da Beleza que não pertence a este século.
V
E assim, no silêncio quebrado apenas
pelo rumor de folhas caindo,
um pássaro terrestre
se tornou metáfora celeste:
a cauda aberta, como um evangelho sem palavras,
erguida diante do nada,
revelou por instantes
a Glória de Deus.
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