1
No húmus vil da carne apodrecida,
a mente busca o Éter transcendental,
e na sabedoria hindu descida
a dor se transmuta em verbo universal.
2
Ó Índia! ventre negro da Verdade,
onde o Nirvana — abismo sideral —
dissolve o Eu na Cósmica Unidade
e faz do Nada um Êxtase imortal.
3
Vejo no Véu de Maya o Mundo inteiro,
fantasma em decomposição visível,
e o asceta, feito lúgubre coveiro,
despreza o corpo pútrido e falível.
4
Sobre cadáveres da existência crua,
a Mente canta em sânscrito febril,
o som da Vontade universal flutua
na podridão da Terra senil.
5
Eis que irrompe a sombra germânica altiva:
Schopenhauer, necrológico profeta,
que viu na Dor a forma mais cativa
da Vontade tirânica e secreta.
6
Ele, irmão do asceta hinduísta,
ergueu da Morte a taça pestilenta
e, com sarcasmo lúgubre, egoísta,
bebeu o Nada em taça macilenta.
7
Nos rios do Ganges, pútridos e santos,
na Alemanha sombria de fumaça,
ecoam, misturados em seus cantos,
a mesma voz que ao Desespero abraça.
8
O Védico e o filósofo germano
se encontram sobre o túmulo do Eu,
e ambos, em silêncio sobre-humano,
beijam o pó que o Cosmos lhes deu.
9
Caveiras cantam hinos metafísicos,
ossos ressoam cânticos sutis,
e os vermes, em festins hieroglíficos,
celebram o Vazio que os unis.
10
Ó Schopenhauer! ó vates orientais!
Vossa aliança é lúgubre e fecunda:
um mundo em putrefação jamais
ousou cantar a Dor tão profunda.
11
Nirvana! — soluço em pó, silêncio eterno!
Vontade! — flagelo universal!
Ambos unidos no abismo moderno,
revelam a essência do Mal.
12
E quando a Carne for só cinza morta,
quando o Caixão se fechar sobre o Nada,
a Voz do Hindu e a do Germano exorta:
— Sofrer é a Lei, mas negar é a Estrada.
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