terça-feira, 9 de setembro de 2025

A GUERRA DOS IMORTAIS - manuscritos perdidos

No princípio era o Único, sem forma e sem fim,

voz sem corpo, luz sem sombra,

e do seu pensamento nasceram as cordas da canção,

e nas águas eternas dançaram os ecos do ser.

Seis filhos gerou da chama de seu coração:

três homens de poder, três mulheres de beleza.

A cada um deu um dom sem igual:

ao primeiro, a coragem;

ao segundo, o saber;

ao terceiro, a guarda do tempo.

Às filhas confiou a graça do mundo:

à mais velha, o cântico das estrelas,

à do meio, o sopro da vida,

à mais jovem, a chama do amor que renova.


Assim formaram coro diante do Pai,

e cantaram as montanhas, e brotaram os mares,

e ergueram-se os vales para receber os homens,

e a alvorada brilhou sobre os elfos imortais.

Mas entre eles havia um coração inquieto:

Morgre, o audaz, de olhos como brasas,

que sonhava mais alto que os céus,

e cujo canto feria a melodia do Pai.

Foi então que, nas trevas exteriores,

Morgre ouviu a voz de Blak, o Sombrio,

irmão do Único, esquecido na noite,

cujo riso era trovão e cuja mão era gelo.


“Vem a mim, filho rebelde,” disse Blak,

“e eu te darei um trono sobre ruínas,

um reino sem sol, coroado de cinzas,

onde nenhum homem nem elfo resistirá.”

E Morgre foi, deixando atrás de si o clarão,

caiu nas trevas e ergueu-se tirano,

vestido de fogo e feitiçaria,

inimigo da luz, aliado da morte.


Os irmãos e irmãs ergueram-se contra ele,

e o mundo inteiro tremeu sob seu embate:

rios secaram, florestas arderam,

montanhas caíram sob a fúria dos deuses.

Chamaram essa era A GUERRA DOS IMORTAIS,

quando filho lutou contra filha,

quando sangue celeste manchou as estrelas,

e a própria terra gemeu sob o peso da discórdia.


Mas o Único, em silêncio, contemplava,

pois sabia que até mesmo a traição

seria tecida em sua tapeçaria,

e que nenhuma sombra poderia apagar a luz.


E foi dito nas canções dos elfos

que, ao fim dos tempos, Morgre e Blak

cairão juntos nas trevas sem retorno,

e os filhos fiéis, renovados em glória,

cantarão outra vez a canção da criação.

(o caderno se encerra aqui e recomeça).




 A GUERRA DOS IMORTAIS

(segundo o relato dos sábios)




I. O Canto do Único

No princípio não havia forma nem cor,

apenas o Único, cujo ser era canto.

De sua mente brotaram mares invisíveis,

e no seu silêncio nasceu a primeira estrela.

O Único pensou e seis filhos se ergueram:

três homens de poder, três mulheres de beleza,

forjados em chama incorruptível,

destinados a guardar o mundo nascente.




II. Os Dons dos Filhos

Ao primogênito deu a Coragem,

para que jamais houvesse temor;

ao segundo deu a Sabedoria,

para que a criação tivesse medida;

ao terceiro, o Guardião do Tempo,

para que tudo seguisse em ordem.

Às filhas confiou a graça do ser:

à mais velha, o cântico das estrelas,

à do meio, o sopro que anima os viventes,

à mais jovem, o amor que reergue o caído.




III. O Mundo dos Homens e Elfos

E cantaram os seis diante do Pai,

e do seu canto brotaram montes e mares;

brotaram rios como fios de prata,

e florestas onde o vento tinha voz.

Ali nasceram os homens, frágeis mas livres,

e os elfos, imortais, reflexo da luz.

Foi tempo de paz e de aurora sem fim,

e os filhos alegraram-se na obra do Pai.




IV. O Orgulho de Morgre

Mas Morgre, o mais audaz dos filhos,

olhou o brilho dos céus e desejou mais.

Sua canção já não seguia o coro,

mas feria a harmonia com notas de ferro.

Dizia em segredo: “Por que cantar em uníssono?

Por que servir, se posso reinar?

Se o mundo nasceu do canto do Pai,

não posso eu também criar com meu fogo?”




V. A Voz de Blak

Então, nas trevas exteriores,

onde o Pai não lançou sua luz,

Morgre ouviu uma voz antiga:

era Blak, irmão do Único, esquecido na sombra.

“Vem a mim, filho rebelde,” disse Blak,

“e eu te darei reinos sem sol,

exércitos de cinza e ventos de morte.

Senta-te ao meu lado e governa os destroços.”

E Morgre partiu, vestindo treva,

levando em si a fúria de mil tempestades.




VI. A Primeira Guerra

Quando voltou, o mundo tremeu.

As florestas arderam, os rios secaram,

os céus se cobriram de fumo e cinza.

Morgre vinha coroado em fogo,

com Blak oculto à sua retaguarda.

Os homens fugiram, os elfos choraram,

e os fiéis dos seis se prepararam para a guerra.

Nasceu então o tempo da discórdia,

quando a própria terra gemeu sob a batalha.




VII. O Levante dos Fiéis

O Primogênito ergueu sua espada,

luz que brilhava contra a escuridão.

O segundo lançou seu saber,

tecendo muralhas de vento e mar.

O Guardião do Tempo fez soar seu sino,

para deter o avanço do dragão.

E as irmãs cantaram juntas,

a canção das estrelas contra o trovão,

e a terra respondeu com rios de luz.




VIII. A Aliança dos Homens e Elfos

Nessa era, os mortais se levantaram,

embora frágeis, embora mortais.

Homens com lanças, elfos com arcos,

lutaram lado a lado sob o mesmo estandarte.

Foi dito que, no auge da guerra,

um pastor e uma donzela elfa

atravessaram o fogo e quebraram as correntes,

e que sua coragem ecoou até os céus.




IX. As Batalhas Sem Fim

Por séculos lutaram, sem aurora nem paz:

mares se ergueram, montanhas tombaram,

as estrelas se apagaram em meio ao combate.

Morgre reinava nas ruínas,

sua voz como trovão sem descanso,

e Blak sorria nas sombras eternas,

pois a criação sangrava sob seus pés.




X. A Esperança da Mais Jovem

Foi então que a filha mais jovem,

aquela que guardava o amor eterno,

levantou-se com lágrimas nos olhos

e cantou sobre as cinzas:

um cântico de perdão,

um cântico de esperança.

E onde sua voz tocava,

flores nasciam no campo de guerra,

e até os corações mais cansados

voltavam a erguer a espada pela luz.




XI. A Queda de Morgre

No fim dos dias, diante do trono do Pai,

os fiéis e os traidores se encontraram.

Morgre rugiu, envolto em fogo,

mas seu clarão não pôde ocultar a verdade.

Pois a luz não é vencida pela sombra,

e o amor não é quebrado pelo ódio.

A espada do Primogênito trespassou sua chama,

e o cântico da mais jovem o desfez em cinzas.

Blak gritou nas trevas exteriores,

e foi lançado para além do tempo,

onde nenhum eco jamais retorna.




XII. O Novo Canto

Assim terminou a Guerra dos Imortais,

não com triunfo de orgulho,

mas com a vitória da luz sobre a soberba.

O mundo renasceu em rios e montanhas,

os homens floresceram, os elfos cantaram.

E os seis filhos voltaram ao Pai,

menos aquele que se perdeu na treva.

E até hoje, nos templos secretos,

homens e elfos recordam em canto:

que nenhuma sombra, por mais profunda,

pode apagar a chama do amor eterno.




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