No princípio era o Único, sem forma e sem fim,
voz sem corpo, luz sem sombra,
e do seu pensamento nasceram as cordas da canção,
e nas águas eternas dançaram os ecos do ser.
Seis filhos gerou da chama de seu coração:
três homens de poder, três mulheres de beleza.
A cada um deu um dom sem igual:
ao primeiro, a coragem;
ao segundo, o saber;
ao terceiro, a guarda do tempo.
Às filhas confiou a graça do mundo:
à mais velha, o cântico das estrelas,
à do meio, o sopro da vida,
à mais jovem, a chama do amor que renova.
Assim formaram coro diante do Pai,
e cantaram as montanhas, e brotaram os mares,
e ergueram-se os vales para receber os homens,
e a alvorada brilhou sobre os elfos imortais.
Mas entre eles havia um coração inquieto:
Morgre, o audaz, de olhos como brasas,
que sonhava mais alto que os céus,
e cujo canto feria a melodia do Pai.
Foi então que, nas trevas exteriores,
Morgre ouviu a voz de Blak, o Sombrio,
irmão do Único, esquecido na noite,
cujo riso era trovão e cuja mão era gelo.
“Vem a mim, filho rebelde,” disse Blak,
“e eu te darei um trono sobre ruínas,
um reino sem sol, coroado de cinzas,
onde nenhum homem nem elfo resistirá.”
E Morgre foi, deixando atrás de si o clarão,
caiu nas trevas e ergueu-se tirano,
vestido de fogo e feitiçaria,
inimigo da luz, aliado da morte.
Os irmãos e irmãs ergueram-se contra ele,
e o mundo inteiro tremeu sob seu embate:
rios secaram, florestas arderam,
montanhas caíram sob a fúria dos deuses.
Chamaram essa era A GUERRA DOS IMORTAIS,
quando filho lutou contra filha,
quando sangue celeste manchou as estrelas,
e a própria terra gemeu sob o peso da discórdia.
Mas o Único, em silêncio, contemplava,
pois sabia que até mesmo a traição
seria tecida em sua tapeçaria,
e que nenhuma sombra poderia apagar a luz.
E foi dito nas canções dos elfos
que, ao fim dos tempos, Morgre e Blak
cairão juntos nas trevas sem retorno,
e os filhos fiéis, renovados em glória,
cantarão outra vez a canção da criação.
(o caderno se encerra aqui e recomeça).
A GUERRA DOS IMORTAIS
(segundo o relato dos sábios)
I. O Canto do Único
No princípio não havia forma nem cor,
apenas o Único, cujo ser era canto.
De sua mente brotaram mares invisíveis,
e no seu silêncio nasceu a primeira estrela.
O Único pensou e seis filhos se ergueram:
três homens de poder, três mulheres de beleza,
forjados em chama incorruptível,
destinados a guardar o mundo nascente.
II. Os Dons dos Filhos
Ao primogênito deu a Coragem,
para que jamais houvesse temor;
ao segundo deu a Sabedoria,
para que a criação tivesse medida;
ao terceiro, o Guardião do Tempo,
para que tudo seguisse em ordem.
Às filhas confiou a graça do ser:
à mais velha, o cântico das estrelas,
à do meio, o sopro que anima os viventes,
à mais jovem, o amor que reergue o caído.
III. O Mundo dos Homens e Elfos
E cantaram os seis diante do Pai,
e do seu canto brotaram montes e mares;
brotaram rios como fios de prata,
e florestas onde o vento tinha voz.
Ali nasceram os homens, frágeis mas livres,
e os elfos, imortais, reflexo da luz.
Foi tempo de paz e de aurora sem fim,
e os filhos alegraram-se na obra do Pai.
IV. O Orgulho de Morgre
Mas Morgre, o mais audaz dos filhos,
olhou o brilho dos céus e desejou mais.
Sua canção já não seguia o coro,
mas feria a harmonia com notas de ferro.
Dizia em segredo: “Por que cantar em uníssono?
Por que servir, se posso reinar?
Se o mundo nasceu do canto do Pai,
não posso eu também criar com meu fogo?”
V. A Voz de Blak
Então, nas trevas exteriores,
onde o Pai não lançou sua luz,
Morgre ouviu uma voz antiga:
era Blak, irmão do Único, esquecido na sombra.
“Vem a mim, filho rebelde,” disse Blak,
“e eu te darei reinos sem sol,
exércitos de cinza e ventos de morte.
Senta-te ao meu lado e governa os destroços.”
E Morgre partiu, vestindo treva,
levando em si a fúria de mil tempestades.
VI. A Primeira Guerra
Quando voltou, o mundo tremeu.
As florestas arderam, os rios secaram,
os céus se cobriram de fumo e cinza.
Morgre vinha coroado em fogo,
com Blak oculto à sua retaguarda.
Os homens fugiram, os elfos choraram,
e os fiéis dos seis se prepararam para a guerra.
Nasceu então o tempo da discórdia,
quando a própria terra gemeu sob a batalha.
VII. O Levante dos Fiéis
O Primogênito ergueu sua espada,
luz que brilhava contra a escuridão.
O segundo lançou seu saber,
tecendo muralhas de vento e mar.
O Guardião do Tempo fez soar seu sino,
para deter o avanço do dragão.
E as irmãs cantaram juntas,
a canção das estrelas contra o trovão,
e a terra respondeu com rios de luz.
VIII. A Aliança dos Homens e Elfos
Nessa era, os mortais se levantaram,
embora frágeis, embora mortais.
Homens com lanças, elfos com arcos,
lutaram lado a lado sob o mesmo estandarte.
Foi dito que, no auge da guerra,
um pastor e uma donzela elfa
atravessaram o fogo e quebraram as correntes,
e que sua coragem ecoou até os céus.
IX. As Batalhas Sem Fim
Por séculos lutaram, sem aurora nem paz:
mares se ergueram, montanhas tombaram,
as estrelas se apagaram em meio ao combate.
Morgre reinava nas ruínas,
sua voz como trovão sem descanso,
e Blak sorria nas sombras eternas,
pois a criação sangrava sob seus pés.
X. A Esperança da Mais Jovem
Foi então que a filha mais jovem,
aquela que guardava o amor eterno,
levantou-se com lágrimas nos olhos
e cantou sobre as cinzas:
um cântico de perdão,
um cântico de esperança.
E onde sua voz tocava,
flores nasciam no campo de guerra,
e até os corações mais cansados
voltavam a erguer a espada pela luz.
XI. A Queda de Morgre
No fim dos dias, diante do trono do Pai,
os fiéis e os traidores se encontraram.
Morgre rugiu, envolto em fogo,
mas seu clarão não pôde ocultar a verdade.
Pois a luz não é vencida pela sombra,
e o amor não é quebrado pelo ódio.
A espada do Primogênito trespassou sua chama,
e o cântico da mais jovem o desfez em cinzas.
Blak gritou nas trevas exteriores,
e foi lançado para além do tempo,
onde nenhum eco jamais retorna.
XII. O Novo Canto
Assim terminou a Guerra dos Imortais,
não com triunfo de orgulho,
mas com a vitória da luz sobre a soberba.
O mundo renasceu em rios e montanhas,
os homens floresceram, os elfos cantaram.
E os seis filhos voltaram ao Pai,
menos aquele que se perdeu na treva.
E até hoje, nos templos secretos,
homens e elfos recordam em canto:
que nenhuma sombra, por mais profunda,
pode apagar a chama do amor eterno.
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