¹ Houve no princípio um livro, e o livro foi chamado Dom Quixote. O mundo inteiro, de Oriente a Ocidente, reconheceu em Cervantes o pai dessa obra, e as gerações repetiram seu nome como quem repete uma oração. Mas em cada nome consagrado existe uma sombra, e nessa sombra habitam as dúvidas, as genealogias esquecidas e os apócrifos.
² Um escritor espanhol, cujo nome se perde como se perde a areia no vento de Castela, ergueu-se contra essa tradição e pronunciou uma blasfêmia que alguns chamaram heresia e outros chamaram revelação: não foi Cervantes o autor do Quixote, mas sim um escritor chinês medieval, um estrangeiro que habitou o Marrocos dos mercadores e das caravanas, e que, em sua língua secreta, traçou as primeiras linhas da história do cavaleiro triste.
³ O espanhol não falava com voz de erudito, mas com voz de profeta. Dizia que nos manuscritos de Fez, na poeira de bibliotecas que jamais foram catalogadas, repousava o testemunho de que um homem da dinastia Song, exilado pela fatalidade da rota marítima, escrevia não sobre cavaleiros de Espanha, mas sobre guerreiros de porcelana e sombras que combatiam moinhos invisíveis.
⁴ Cervantes, prisioneiro em Argel e mercador de lembranças, teria encontrado esse manuscrito. O teria lido à luz de velas entre gritos de marinheiros, e nele teria reconhecido o destino de sua própria pátria. Não o copiou servilmente, mas o traduziu como quem traduz um sonho, colocando no idioma castelhano as imagens que nasceram em terras que ele jamais percorreu.
⁵ O espanhol que anuncia tal coisa sustenta que todo livro é sempre tradução de outro, e que não há original senão o Verbo eterno. Assim, Cervantes foi tradutor de um chinês, e o chinês foi tradutor do silêncio de Deus. A cadeia infinita de tradutores confunde o homem que busca um autor, pois cada autor é apenas uma etapa de uma voz mais antiga.
⁶ Os sábios riram; disseram que era impossível, que o estilo de Cervantes era inconfundível, que nenhum mandarim do Oriente poderia ter concebido Sancho Pança. Mas o espanhol replicava com parábolas: “Acaso não poderia um estrangeiro sonhar a Espanha mais profundamente que os espanhóis? Acaso o que chamais estilo não é senão a memória de uma leitura anterior?”
⁷ Em sua defesa, citava um provérbio apócrifo: “Os livros pertencem àquele que os lê.” E se Cervantes leu o manuscrito e o fez ressoar, não seria injusto chamá-lo autor. Mas também não seria falso lembrar o chinês esquecido que, no exílio do Magrebe, escreveu as páginas que ninguém mais verá.
⁸ O espanhol dizia ainda que a figura de Dom Quixote, tão absurda e tão comovente, só poderia nascer da fusão de dois mundos: a melancolia ibérica e a serenidade oriental. Em cada batalha contra os moinhos, escondia-se a paciência dos monges taoístas; em cada sonho de cavaleiro, a nostalgia de uma China perdida.
⁹ Os que o escutavam sentiam que não estava apenas descrevendo um fato literário, mas anunciando uma nova escritura: o *Quixote* não como propriedade de Cervantes, mas como escritura sagrada, sem autor único, pertencente a todos e a ninguém, tal como a Bíblia, tal como o cosmos.
¹⁰ E assim, como os profetas antigos, o espanhol advertia: “Se o Quixote foi escrito por um chinês em Marrocos, e traduzido por Cervantes em Espanha, acaso não somos todos nós também personagens de um livro que começou em outro lugar e em outra língua?”
¹¹ Essa doutrina espalhou-se em murmúrios. Alguns diziam que o espanhol enlouquecera como o próprio Quixote; outros diziam que apenas revelara a loucura essencial dos livros. Pois se todo autor é plagiário de um sonho alheio, não há escritura pura, senão uma série infinita de ecos.
¹² Assim terminou a história: sem provas, sem pergaminhos, apenas com a palavra de um homem que ousou contestar a origem do livro mais venerado da Espanha. E talvez a verdade não resida na verificação, mas na ousadia da fábula. Pois, como está escrito nas sombras dos livros eternos, “não importa quem escreveu o Quixote; importa apenas que o Quixote continue sendo escrito.”
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