quarta-feira, 25 de outubro de 2017

Estações

Estações

Sou o que sou
não posso mudar.
Como mudar?
Me diz, lua de prata,
enferrujada de branco;
me ensine, sol,
luz flamejante da
morte dentro da vida.
Sou o que sou.
O que fazer para
ser menos azul,
menos verde de
                natureza? 
O que fazer para
tirar a mancha do
orgulho de dentro
do meu peito enferrujado
e ferido como o luar
pálido?
O galo canta sempre
a mesma nota e a mesma
nota outros galos respondem.
Sou como essa nota fina,
arrogante, quero se exceder,
quero ser e não ser.
E para não ser sou.
Não posso mudar. 
É as estações, 
e já passou.

terça-feira, 24 de outubro de 2017

Violino, violina

Violino, violina

...e por tudo isso o amor nos sangra...

Mas você me viu,
frio como o campo,
gelado como o sol,
frio como o dia frio,
noturno como a noite.
E eu te via raiando
com o ventos nos lábios,
beijando-me com o fogo
do coração imóvel,
enquanto eu escrevia
moto de versos, morto
como os jornais.
Mas você me via,
não me via? morto
pelos campos, com
as mãos inchadas de
mariposas, com os
olhos cheios de grilos.
Sua voz não me alcançava,
nem a manhã me ofendia.
Você não era judia, e mesmo
assim eu te decifrava o talmud.
O meio não é o nosso fim,
mas você me via, você me viu,
ridículo como as gaivotas mudas,
cheio de torturas, amargo, vivo,
como todos os objectos.
E no final os nossos corações
se tornaram uma só máquina.
O pulso da vida era aquele olhar
de peixe, de rocha, de nuvem.
Por fim o nosso amor
se elevou até o céu como elias,
queimando nas mãos de Deus,
ardendo nas imensidões eternas!

Noturna balada

Noturna balada

Canta o galo.
Que horas
são?
A mesma
de ontem
ou novas
horas serão?

O amor

O amor
E começo o amor
e não começa,
arde os olhos,
fere o peito,
lábios de mel,
beijos de manteiga,
e arde os olhos
com luas e pedras,
pequenos dilemas,
e segue o amor
e começa o poema.

Amor, vou deixar

Amor, vou deixar
Amor, vou deixar
em tua porta
o meu amor,
as minhas folhas,
os papéis do ar,
amor, ali vou
deixar o sal e o
açúcar, o mel e o
pão, o frio e o
vento sereno.

Foi

Foi
Foi rio
antes da aurora,
foi choro,
pedra, pluma
e fogo.
Estrela, nuvens,
campo.
Depois mingou.
Findou-se. E pronto.

domingo, 22 de outubro de 2017

Sul

Sul


Granada, que luz
de fogo molha os meus olhos?

Alva, granada,
que és? espelhada,
ritmo de tourada?
alva estrelada?

E as suas judiarias?

Granada, que luz
de fogo molha os meus olhos?
Alva, granada,
pedra talhada.

Só isso.