quinta-feira, 13 de novembro de 2025

Entre as Cinzas, o Outro - poema



Eu — judeu feito de pó e promessa,

carrego nos ossos as vozes que ardem,

o deserto que caminha comigo

como um anjo cansado.


E tu — goy de passos abertos,

traz nos olhos a claridade do mundo

que não sabe de fronteiras,

a inocência que meu povo esqueceu

na pressa de sobreviver.


Entre nós,

há fios invisíveis,

como se Deus bordasse

um raro instante de paz

num pano rasgado.


Te amo

com as mãos trementes

de quem já perdeu tudo,

e ainda assim abre a porta

para um estranho de luz.


No teu peito,

escuto um coração sem memória

cantando para o meu,

que traz a memória demais —

e mesmo assim responde.


Somos dois viajantes

numa noite que não conhece

nenhum nome sagrado ou proibido,

apenas o sopro quente

que une respiração a respiração.


E talvez o Eterno,

lá no silêncio onde Ele se esconde,

sorria de ver

que a dor do mundo

ainda sabe transformar-se

em amor.


Entre as Cinzas, o Outro - dibujo


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