quinta-feira, 13 de novembro de 2025

LITERATURA SEM SOM VAGO

Não tô ali:

estou em Cristo crucificado,

erguido no meio das horas

como um sol que sangra

sobre a língua do mundo.


Estou nas pirâmides do Egito,

onde meus passos antigos

ainda guardam o pó dos faraós

e o silêncio que empurra a eternidade

para dentro da carne.


Estou no ouro errante das diásporas,

na arca do tempo,

onde um povo nômade carrega

não moedas, mas memórias —

seixos brilhantes recolhidos

do deserto da história.


Estou nas tristezas do blues dos negros,

gema escura

que canta feridas e ressurreições,

martelo de dor transformado

em ponte para o milagre.


Estou no prêmio Nobel sueco,

onde a neve acende

um fogo intelectual

que tenta traduzir o infinito

em palavra humana.


E estou nas árvores mortas, pagas,

manequins da natureza sacrificada

para que o homem escreva

seu livro de fantasmas e ruídos.


Não tô ali:

estou no meio de tudo,

correndo pelas fissuras do real,

buscando a literatura sem som,

sem vento, sem rosto —

uma literatura que pulsa

como nervo da criação,

vaga e eterna,

à espera

de quem possa ouvi-la.




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