Não tô ali:
estou em Cristo crucificado,
erguido no meio das horas
como um sol que sangra
sobre a língua do mundo.
Estou nas pirâmides do Egito,
onde meus passos antigos
ainda guardam o pó dos faraós
e o silêncio que empurra a eternidade
para dentro da carne.
Estou no ouro errante das diásporas,
na arca do tempo,
onde um povo nômade carrega
não moedas, mas memórias —
seixos brilhantes recolhidos
do deserto da história.
Estou nas tristezas do blues dos negros,
gema escura
que canta feridas e ressurreições,
martelo de dor transformado
em ponte para o milagre.
Estou no prêmio Nobel sueco,
onde a neve acende
um fogo intelectual
que tenta traduzir o infinito
em palavra humana.
E estou nas árvores mortas, pagas,
manequins da natureza sacrificada
para que o homem escreva
seu livro de fantasmas e ruídos.
Não tô ali:
estou no meio de tudo,
correndo pelas fissuras do real,
buscando a literatura sem som,
sem vento, sem rosto —
uma literatura que pulsa
como nervo da criação,
vaga e eterna,
à espera
de quem possa ouvi-la.
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