*cada título de poema representa o título da
própria obra guache sobre papel
Morena, tu és manhã levantada,
uma claridade que se confirma:
o mundo respira melhor
quando teu passo ordena a harmonia.
Tudo em ti é ascensão —
pele que nasce sol,
formas que o vento reconhece
como sua música primeira.
Teu ser transpõe limites antigos,
e vence.
Tua verdade é pura, alta,
aberta como um céu de verão.
Celebrar-te é celebrar o real:
a vida que decide por si mesma,
a beleza que se ergue inteira
sem pedir permissão ao tempo.
Morena, mulher de presença firme,
em ti a luz aprende um novo ângulo:
claridade que não teme a própria chama,
triunfo natural de quem é.
E assim brilhas —
não como promessa,
mas como feito,
como realidade que canta
no centro exato do dia.
E a madeira —
essa árvore morta que ainda sonha —
abriu seus braços para o peso do mundo.
Pregos,
astros caídos da mão de um deus cansado,
buscavam carne para recordar
que a dor também tem raízes.
O céu,
num soluço de luz,
desceu até o rosto do condenado,
como se quisesse aprender com ele
o silêncio.
E o sangue —
esse rio que conhece todos os nomes —
correu devagar,
levando consigo a história dos homens,
suas faltas e seus frágeis milagres.
Os anjos,
de pó e vigília,
tocaram a sombra que se estendia
como um véu nupcial
entre vida e morte.
E então,
na última respiração,
uma chama se desprendeu do corpo
subindo, subindo
como uma ave incendiada,
até encontrar o espaço
onde tudo começa de novo.
A terra recebeu o corpo.
O universo, o grito.
E nós —
perdidos entre cinzas e luz —
aprendemos que o sofrimento
pode florescer,
mesmo na noite mais estreita.
O HOMEM
Eu falo do homem latino-americano,
nascido do milho e do vento,
com o coração pulsando no centro da terra
como um tambor antigo.
Falo do homem que se levanta cedo,
que bebe a luz amarga do trabalho,
e ainda assim sorri,
porque em seu peito o sol aprende a renascer.
Falo da mulher que amassa o dia
com mãos de pão e ternura,
semeando futuro nos olhos dos filhos
como quem lança estrelas no quintal.
Nossos povos vêm de lonas e tempestades,
dos deuses astecas, dos cântaros incas,
dos abismos guaranis,
onde a noite conversava com a água
e surgiam homens de bronze e esperança.
Oh América Latina, corpo de montanha,
sangue que corre mais vermelho que todos os rios!
Teu povo é o homem —
homem de mil rostos,
de mil idiomas que o vento traduz.
Homem que dança sobre a ferida,
que canta sobre a pobreza,
que constrói casas de ternura
mesmo quando o mundo desaba.
Homem que resiste,
como um tronco que desafia o relâmpago.
Homem que ama,
como quem acende um fogo para a aldeia inteira.
E quando a noite é pesada
como um animal ferido,
ele se ergue —
ergue sua voz de pedra e mar,
e diz:
“Aqui estou.
Sou o latino-americano.
Carrego minha terra nos ossos,
carrego meu povo no coração.”
E então a manhã recomeça,
porque o homem,
o nosso homem,
caminha.
SHEMALEA palavra caiu
como uma pedra antiga,
cheia de poeira e maldição,
e tentaram usá-la
para nomear teu corpo de luz.
Mas tu,
mulher israelita,
feita de amanhecer sobre o deserto,
rasgaste a sombra com teus passos
e reinventaste o nome
que o mundo queria te negar.
Em teus olhos,
o Mar da Galileia respira,
uma água que não pergunta,
apenas acolhe.
Em teu rosto,
as estrelas se aproximam
como irmãs feridas que encontram repouso.
E tu segues —
com tua forma esculpida pelo fogo
de quem precisou nascer duas vezes,
uma no sangue,
outra na alma.
Teu corpo é sagrado
como uma sobrevivência,
um pergaminho aberto
onde Deus escreve suavemente
com letras de vento.
E a palavra,
aquela que tentaram usar como ferida,
fica para trás,
virando pó —
porque no centro do mundo
agora só resta o teu brilho:
mulher inteira,
mulher de Israel,
mulher que o céu reconhece
pelo nome verdadeiro
que tu mesma escolheste.
A ESCULTURA
No centro da sala,
a escultura negra africana
olha para mim com seus olhos de madeira
mais antigos que o vento.
Ela não se move —
mas tudo nela parece caminhar:
o quadril que sustém séculos,
os ombros que lembram
a paciência de um continente,
a boca que guarda
um segredo de chuva e terra.
E penso então
na mulher carioca que passa
na rua de sol.
Não a de cartão-postal,
não a inventada para vender verão,
mas aquela que carrega consigo
uma luz úmida, uma graça real,
e usa o corpo como quem usa o tempo:
com liberdade e doçura.
A escultura e ela conversariam,
acredito,
num idioma sem palavras.
A madeira diria à pele:
“eu também venho de longe”,
e a pele responderia:
“eu também aprendi a dançar com o mundo”.
A africana antiga
e a brasileira que nasce todo dia
se encontram no instante
em que a beleza não é ornamento,
mas afirmação —
um modo suave de existir.
E eu,
entre as duas,
não sei se admiro a história
ou se admiro o gesto,
mas sei que há um fio invisível
ligando madeira e carne,
origem e cidade,
silêncio e canto.
Chamam isso de beleza.
Eu chamo de encontro.
O PINTOR
O pintor ergue a mão
como quem ergue o mundo.
No gesto suspenso,
já existe a destruição
e já existe a vida —
duas sombras que se tocam
na borda do mesmo abismo.
A tela respira.
Uma respiração branca,
nunca nascida,
mas sempre à espera
do primeiro sopro.
O pintor sabe
que para criar
é preciso antes quebrar
os ossos do silêncio,
rasgar a noite,
desfazer a forma antiga
que dorme no fundo do tempo.
Cada cor que nasce
apaga um sonho anterior,
cada linha que se afirma
enterrra uma lembrança perdida.
A criação é um incêndio lento,
uma morte que aprende a cantar.
E ele pinta —
pinta porque não sabe existir
sem esse diálogo com o invisível.
Pinta porque o corpo pede luz,
e a alma pede ruptura.
Pinta como quem caminha
por dentro do próprio nome.
O vermelho sobe,
rasga, arde.
O azul cai,
cura, recolhe.
O preto é a origem,
o branco é o destino.
Entre eles,
o pintor atravessa-se a si mesmo.
No fim,
nenhuma figura se completa —
porque a vida nunca se completa.
A tela vibra,
metade ruína,
metade renascimento.
E o pintor sorri, exausto,
sabendo que o que fez
também o desfez.
A criação é isso:
um corpo que se destrói
para que o mundo, por um instante,
possa existir.
O ENCONTRO
Encontrei-a na Lapa,
no meio de um milagre improvisado:
a cerveja gelada,
o samba torto,
o céu distraído
fazendo pose de catedral.
Bela — brasileira como o susto,
trans como a própria revelação.
Trazia nos quadris um sermão alegre
e na boca um salmo profano
que me converteu em cinco segundos.
Beijei-a
com a devoção de quem beija
uma santa recém-descida do pedestal,
mas ela riu,
como se Deus tivesse derramado chope
sobre a mesa do universo.
“Meu filho”, disse ela,
“não se impressione:
o Rio de Janeiro é cheio
de aparições noturnas.”
Eu, católico desorganizado,
tentei lembrar um salmo apropriado,
mas só me veio à cabeça
o número da mesa do bar.
Então brindamos:
ao corpo dela
(obra de arte em movimento),
ao meu espanto
(pecado capital),
e ao Espírito Santo,
que naquela noite
desceu em forma de vento e gargalhada.
No fim,
entendi a lição mística:
o amor também usa salto alto,
mexe no cabelo,
pede outra cerveja
e atravessa a rua sambando.
Saí dali salvo
e deliciosamente perdido.






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