Escrever poesia é uma perda de tempo,
dizem os que contam o tempo com relógios
e não com o coração.
Perder tempo é, talvez, o último luxo do homem,
porque já perdemos o sono,
a fé,
e o direito de estar calados.
Escrever poesia é o modo mais inútil de dizer a verdade,
porque a verdade não quer ser dita,
apenas lembrada por um instante antes de se dissolver
como a espuma da boca dos que rezam.
Quem escreve poesia cava poços no ar
e tenta beber o vento.
E no entanto,
é o vento que nos bebe primeiro,
nos mastiga, nos cospe,
e continua soprando, indiferente,
como se nada tivesse acontecido.
Não há verso que salve ninguém,
nem palavra que repare o mundo.
Mas há um instante, breve como o susto de um pássaro,
em que alguém lê,
e entende,
e por um segundo o tempo pára de correr.
Se isso é perda,
bendita seja.
Perder é a única forma de possuir sem ferir,
de lembrar sem matar,
de existir sem explicar.
Escrever poesia é uma perda de tempo,
sim —
mas o tempo que se perde é o que nos devolve a alma.
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