terça-feira, 11 de novembro de 2025

Escrever poesia é uma perda de tempo


Escrever poesia é uma perda de tempo,

dizem os que contam o tempo com relógios

e não com o coração.


Perder tempo é, talvez, o último luxo do homem,

porque já perdemos o sono,

a fé,

e o direito de estar calados.


Escrever poesia é o modo mais inútil de dizer a verdade,

porque a verdade não quer ser dita,

apenas lembrada por um instante antes de se dissolver

como a espuma da boca dos que rezam.


Quem escreve poesia cava poços no ar

e tenta beber o vento.

E no entanto,

é o vento que nos bebe primeiro,

nos mastiga, nos cospe,

e continua soprando, indiferente,

como se nada tivesse acontecido.


Não há verso que salve ninguém,

nem palavra que repare o mundo.

Mas há um instante, breve como o susto de um pássaro,

em que alguém lê,

e entende,

e por um segundo o tempo pára de correr.


Se isso é perda,

bendita seja.

Perder é a única forma de possuir sem ferir,

de lembrar sem matar,

de existir sem explicar.


Escrever poesia é uma perda de tempo,

sim —

mas o tempo que se perde é o que nos devolve a alma.




Nenhum comentário:

Postar um comentário