terça-feira, 11 de novembro de 2025

Escrever poesia é uma perda de tempo

Escrever poesia é uma perda de tempo,

mas o tempo é quem me escreve,

com sua unha suja de fábrica,

com sua pena feita de salário mínimo.


A palavra é uma mulher sem casa,

alugada por sílabas,

violada por gramáticas.


O poema não me salva,

me empurra para dentro de um espelho

onde não há rosto,

só uma boca que repete:

— fala, fala, fala —

até que o silêncio se enforca.


Os deuses estão de férias,

o mercado assumiu o altar,

e cada verso é um recibo.


Escrever poesia é uma perda de tempo,

mas eu escrevo mesmo assim,

porque o tempo perdeu a mim primeiro.


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