Escrever poesia é uma perda de tempo,
mas o tempo é quem me escreve,
com sua unha suja de fábrica,
com sua pena feita de salário mínimo.
A palavra é uma mulher sem casa,
alugada por sílabas,
violada por gramáticas.
O poema não me salva,
me empurra para dentro de um espelho
onde não há rosto,
só uma boca que repete:
— fala, fala, fala —
até que o silêncio se enforca.
Os deuses estão de férias,
o mercado assumiu o altar,
e cada verso é um recibo.
Escrever poesia é uma perda de tempo,
mas eu escrevo mesmo assim,
porque o tempo perdeu a mim primeiro.
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