!em memória de josé saramago e jorge amado, os grandes da língua portuguesa!
o noé era um homem pequeno por dentro,
mesmo que muito grande aos olhos dos bichos.
tudo nele tremia, como quando a gente tem medo
e mesmo assim abre a porta para a tormenta.
o mundo estava cansado, dizia deus,
e noé, com a humildade de quem aceita
as palavras de um pai ausente,
pôs-se a juntar madeira como quem junta
os pedaços de um coração partido.
a arca nasceu torta, desalinhada,
como nascem as coisas feitas com pressa
e uma fé que não se sabe se é fé
ou apenas desespero a pedir companhia.
vieram os bichos, todos muito sozinhos,
uns com vergonha, outros a tremer,
e noé acolheu cada um como se acolhesse
os filhos que nunca conseguiu ter.
choveu tanto que até deus se escondeu.
noé, porém, não se encolheu:
aprendeu a navegar pela tristeza do mundo
com a mão firme de quem sabe
que há sempre um pouso
para quem não desistiu do último fôlego.
a arca seguiu, carregando o planeta
em miniatura, como um ventre improvável.
e noé, sentado ao lado do silêncio,
entendeu que salvar o mundo
é uma espécie de amor que dói,
uma coragem que nasce justamente
na hora em que não a temos.
e quando as águas cansaram de existir,
noé abriu a porta como quem abre
o peito para o primeiro filho.
os bichos saíram, tímidos, gratos,
e ele chorou por cada vida que se ergueu
no barro novamente limpo.
noé era um homem pequeno por dentro,
mas deus sabia:
é só com os pequenos
que o mundo recomeça.
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