domingo, 16 de novembro de 2025

a arca de noé

!em memória de josé saramago e jorge amado, os grandes da língua portuguesa!


o noé era um homem pequeno por dentro,

mesmo que muito grande aos olhos dos bichos.

tudo nele tremia, como quando a gente tem medo

e mesmo assim abre a porta para a tormenta.


o mundo estava cansado, dizia deus,

e noé, com a humildade de quem aceita

as palavras de um pai ausente,

pôs-se a juntar madeira como quem junta

os pedaços de um coração partido.


a arca nasceu torta, desalinhada,

como nascem as coisas feitas com pressa

e uma fé que não se sabe se é fé

ou apenas desespero a pedir companhia.


vieram os bichos, todos muito sozinhos,

uns com vergonha, outros a tremer,

e noé acolheu cada um como se acolhesse

os filhos que nunca conseguiu ter.


choveu tanto que até deus se escondeu.

noé, porém, não se encolheu:

aprendeu a navegar pela tristeza do mundo

com a mão firme de quem sabe

que há sempre um pouso

para quem não desistiu do último fôlego.


a arca seguiu, carregando o planeta

em miniatura, como um ventre improvável.

e noé, sentado ao lado do silêncio,

entendeu que salvar o mundo

é uma espécie de amor que dói,

uma coragem que nasce justamente

na hora em que não a temos.


e quando as águas cansaram de existir,

noé abriu a porta como quem abre

o peito para o primeiro filho.

os bichos saíram, tímidos, gratos,

e ele chorou por cada vida que se ergueu

no barro novamente limpo.


noé era um homem pequeno por dentro,

mas deus sabia:

é só com os pequenos

que o mundo recomeça.



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