A paisagem envelheceu.
Os homens querem retratos,
mas eu só vejo o estilhaço
— o clarão que sobra do mundo
quando a luz se cansa de figurar.
Dizem: “Pinte o rosto,
o rio, o girassol,
a maçã obediente.”
Mas meu pincel desaprendeu a obedecer:
ele se move sozinho,
como um profeta descalço
no deserto das formas.
Quero a arte sem modelo,
a tela que respira
como um pulmão cósmico,
o azul que não precisa de céu,
o vermelho que não pede sangue,
a linha que se dobra
para falar com Deus em silêncio geométrico.
A crítica me observa
com seus óculos de ferro,
suas regras de domingo,
suas molduras quadradas.
Não entende que a abstração
é apenas o mundo
depois de tirar o corpo fora da matéria.
Pintar é quebrar o espelho:
da queda nasce um mapa novo
— continente de manchas,
país de fulgor.
A arte figurativa pede licença;
a arte abstrata entra de rompante,
toma o trono, vira fumaça,
e mesmo assim governa.
Eu pinto o que não existe
porque o que existe
já ficou velho demais.
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