quinta-feira, 13 de novembro de 2025

Crítica

A paisagem envelheceu.

Os homens querem retratos,

mas eu só vejo o estilhaço

— o clarão que sobra do mundo

quando a luz se cansa de figurar.


Dizem: “Pinte o rosto,

o rio, o girassol,

a maçã obediente.”

Mas meu pincel desaprendeu a obedecer:

ele se move sozinho,

como um profeta descalço

no deserto das formas.


Quero a arte sem modelo,

a tela que respira

como um pulmão cósmico,

o azul que não precisa de céu,

o vermelho que não pede sangue,

a linha que se dobra

para falar com Deus em silêncio geométrico.


A crítica me observa

com seus óculos de ferro,

suas regras de domingo,

suas molduras quadradas.

Não entende que a abstração

é apenas o mundo

depois de tirar o corpo fora da matéria.


Pintar é quebrar o espelho:

da queda nasce um mapa novo

— continente de manchas,

país de fulgor.


A arte figurativa pede licença;

a arte abstrata entra de rompante,

toma o trono, vira fumaça,

e mesmo assim governa.


Eu pinto o que não existe

porque o que existe

já ficou velho demais.



Nenhum comentário:

Postar um comentário