terça-feira, 11 de novembro de 2025

Soneto do Deus Miúdo

Não saio de casa porque já morri,

a rua tem cheiro de corpo e salário,

cada vitrine é um crucifixo diário,

e o amor é um vício que eu nunca escolhi.


Quando saio o trabalho me mata, enfim,

me fura o peito com riso bancário,

a carne se vende em ritos do horário,

e o tempo engole o resto de mim.


O deus do silêncio, em seu ceuzinho estreito,

conta moedas, pesa o meu defeito,

olha o pó dos homens, e se diverte.


Somos farelos dos pés que nos pisam,

anjos de plástico que nunca aterrissam,

mortos de pé fingindo estar de pé — inertes.



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