domingo, 8 de julho de 2018

Se querem


Se querem saber
quem eu sou
não busquei
nas estantes,
nem nos quadros,
não me chameis
nos rios,
não estou nas pontes,
não atravesso a cidade,
não tenho espada,
nem sangue, nem touro,
não carrego cruzes nem
estrelas de jardins adormecidos.
Se querem saber
quem eu sou,
olhai os bosques
(não estou ali),
não me chamem
para festas,
nem para funerais,
não queirais adivinhar
meu verdadeiro nome,
não me oferecei jóias,
não me deem presentes,
se querem saber
quem eu sou
não gritem o meu nome
não digam as mariposas
o porquê das minhas
gravatas serem apertadas,
não me distinguais com abortos,
não me questioneis com Deus,
me deixai ser livre preso,
me deixai transparente
como o vidro ou como
um soldadinho peão
no jogo de xadrez,
perguntai aos vizinhos curiososos:
quem é ele?
não, não sou aquele que fala
de morte, não tenho o segredo
da vida, não gosto de colheres,
não, não tenho noites profundas,
não sonho como as pedras,
nem amo como os carvalhos,
não,
se querem saber
não busquem por mim
nas páginas amarelas,
não me deem convites
de casamento,
não sorriam para mim,
não, não me busquem
nas bibliotecas dos mortos,
nem nas tumbas dos vivos,
não queirais decifrar
meu coração de centauro.
Se nem eu mesmo sei quem sou
como ousais querer saber?

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