quarta-feira, 5 de agosto de 2026

Silêncio de cinza

 Silêncio de cinza na balança sem peso.

A palavra que restou na garganta

é uma pedra calcinada:

Justiça.


Nenhum anjo desce a escada de fumaça.

As portas do céu rangem

ferrugem e mofo.

Deus retirou-se para o seu silêncio de sombra,

e o homem — ó mãos de argila e prego —

ergueu-se sozinho sobre o próprio teto,

senhor do seu relógio sem ponteiros.


Não há aurora de Cordeiro e leão deitado.

Nenhuma harpa messiânica afina

o vento seco dos dias.

Mas o grito ainda rasga o entulho:

a terra quer justiça,

a carne quer a fenda da liberdade.


E mesmo sem promessa,

mesmo com o escuro pesando no fundo do poço,

uma foice corta a raiz do mal,

gota a gota,

contra o esquecimento.

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