sábado, 7 de julho de 2018

Perdão



Perdoem
os que querem
mais de mim
do que posso
oferecer nesse
momento triste
de minha triste
vida de galo
rouco.

Só posso oferecer
diante dessa janela
aberta de ventos
e plumas as mesmas
palavras de sempre.

Só posso oferecer
palavras de amor,
companheiro melancólico
dos rios sombrios
de minha cidade,
só posso oferecer
palavras de amor e
sexo para ti,
minha companheira,
planta do meu amor.

Por isso sou tão repetitivo,
como uma locomotiva que
vive apitando sua fumaça
sem sair do lugar. 

As vezes, quando caminho,
sei que tenho a cara triste,
mais não é porque o meu
coração está sendo esfaqueado
que não deixarei de cantar
pelas ruas e pelas calçadas
esburacadas da minha
bela sofrida e triste
cidade natal.

Perdoem-me, eu sempre
peço perdão, porque sou
um cristão verdadeiro,
e a culpa jaz dentro 
de mim assim como
um morto de roupas
dentro de uma tumba
cheia de areia e vento.

Eu só posso oferecer isso:
não tenho palavras profundas.
Se eu quisesse se profundo
iria cavar um buraco.

Quando me pedem um
verso eu o dou como posso:
meus versos querem ser
vivos, querem respirar,
alguns nascem nascituros,
mortos, quebrados,
outros não tem pés, nem mãos,
nem veias, nem dentes, nem olhos,
são como as máscaras presas do
oficio, e ai, como doí trabalhar meus versos. 

Perdoem-me, porque só posso
falar coisas de que sei e de que não sei:
só posso falar dos campos que vejo
do saudoso mar que se foi para sempre
da minha pequena amada que tem uma
boceta rosada como os lírios vermelhos
só posso cantar as coisas que são como
são no momento certo porque estou cantando.

Quando canto sou como um galo.
As vezes tenho resposta, as vezes
apenas o silencio me incendeia por dentro,
e a chuva lenta das estrelas com água
me esfriam e me molham e eu vou
sofrendo com esses espelhos e mapas
que nem mesmo eu entendo.

Por favor, eu peço perdão,
porque quando ganho no xadrez
não sinto mais nada a não ser
que minha mente não sabe raciocinar,
que não faço parte desse mundo
e nele estou presto,
que me lembro de algo bom
enquanto passo fome,
e enquanto escuto as músicas
do outono e do rádio
sem que a vida se consome
em fogo e em mel.

Ai, por favor, perdoai-me,
estou aqui, estou ali,
tímido como as gaivotas,
medonho como os rinocerontes,
estou escavando minhas terras
como as toupeiras, porque sou 
uma toupeira e não sei de nada
e estou preso a uma panela
e estou sendo cozido por essa
obrigação que a vida me obriga.

Perdoem
os que querem
mais de mim.
Só posso oferecer
meus versos.
Os mesmos versos 
de sempre.

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