Me pediram uma crônica. E mais uma vez vou fazê-la. Não irão pagá--la, mesmo assim , o prazer de escrever é o que me faz ser um escritor, um assim chamado artista. A minha cidade é uma muralha, eu gosto de compará-la a um espécie de panela.
Quando ando por ela, por esse asfalto quente e negro, por dentro, meu coração baila e canta sozinho, por isso pareço muito distraído quando caminho pelas calçadas esburacadas de Adamantina.
Dentro do meu coração, mentalmente, vão me acompanhando violões, guitarras, címbalos, todo tipo de instrumento. Por isso me considero um poeta cantor, um cantor poeta, e de vez em quando eu me arrisco a cantar nos salões santos da Igreja que frequento.
Minha quietude, minha serenidade, meu silencio é uma forma de aprendizado próprio. Preciso dessas coisas para respirar, para ser a mim mesmo.
Quando me reúno com amigos, e fico quieto, ou na igreja, nos salões das sinagogas, quando fico olhando os meus sapatos, meus gestos geralmente são sombrios, e eu me vejo jogando xadrez, cantarolando metáforas em hebraico, lembrando filmes, pessoas, mágoas, alegrias estranhas.
Carrego tudo isso comigo, e como é possível isso?
Quando fico quieto ou em silêncio, isso antes mesmo de dormir ou pegar no sono, tenho um aspecto obsessivo de morte. Eu dou para um belo gótico, porque amo me vestir de negro, gosto da cor escura do céu quando escurece, me agrada a quietude dessa cor.
Em constaste com tudo isso está o meu amor pela cor azul e pelo branco. Ligação talvez que tenha nascido da admiração que sinto verdadeiramente pelo cantor Roberto Carlos.
Sei que um dia irei entender tudo isso que escrevo para o fator ninguém, para o leitor ninguém, em algum futuro próximo, diante do presente da morte, ou sabe-se lá quando, se no fundo de um balcão vendendo tapetes, ou se diante das muralhas do muro das lamentações em Jerusalém. Por enquanto não nasci. Eu estou vivendo nesse corpo emprestado por DEUS, e tento por instantes compreender tudo isto que me rodeia (o universo, a vida), sei que é querer muito, isso eu sei.
O que tenho dentro de mim ninguém pode tirar, mas não me pertence, não é meu. Podem me matar, isso podem. Podem me destruir, esses selvagens, ou me deixarem morto, crucificado, escanteado, desamparado, aflito, excomungado, isso podem. Eu tenho a chave do tempo.
Dona morte e dona lua são duas coisas que sabem isso. Por que? Porque eu ainda não nasci. Veremos se ainda vou nascer. Isso sim, veremos.

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