Havia duas maneiras de atravessar a Névoa de Salgueiro.
A primeira era morrer.
A segunda era nascer um dos irmãos
Hemlock.
Não havia uma terceira maneira,
embora muita gente tivesse tentado inventar uma. Um homem tentou atravessá-la
montado num burro branco e voltou três dias depois convencido de que era a
própria mãe. Uma mulher amarrou sinos às roupas e entrou cantando. Os sinos
foram encontrados numa árvore, muitos anos mais tarde, tocando sozinhos sempre
que alguém mentia.
Os irmãos Hemlock nunca comentavam
essas histórias. Não por falta de interesse, mas porque tinham o hábito de não
falar sobre coisas que já haviam acontecido. Segundo Barnaby, o passado era uma
espécie de correspondência: se você abrisse todas as cartas, acabaria recebendo
uma resposta que não desejava.
Barnaby e Jeremy eram bruxos.
Não usavam chapéus pontudos, não
transformavam príncipes em sapos e não possuíam corujas mensageiras. Sapos,
segundo eles, eram criaturas excessivamente barulhentas para a quantidade de
trabalho que davam. Quanto às corujas, tinham opiniões muito fortes sobre a
noite e não sabiam guardar segredos.
Os dois moravam numa casa de três
andares que existia às terças-feiras e durante os eclipses. Em todos os outros
dias, havia apenas um poço cego, algumas pedras cobertas de musgo e um cheiro
distante de chá de alfazema.
A casa não era invisível. Era pior do
que isso: era esquecível.
As pessoas passavam por ela sem notar
a ausência de uma casa. E, quando por acaso sentiam que alguma coisa deveria
estar ali, costumavam atribuir a sensação à idade, ao clima ou a alguma
indiscrição cometida na juventude.
Barnaby era o mais velho por onze
minutos e, por isso, considerava-se responsável por quase tudo.
Era o bruxo das Coisas Escritas.
Colecionava palavras que escapavam da
boca das pessoas sem que elas percebessem. Não palavras comuns, como bom dia ou passe o sal, mas
aquelas que surgiam quando alguém estava cansado demais para mentir.
Fique.
Perdoe-me.
Eu não queria.
Não vá ainda.
Barnaby guardava essas palavras em
frascos de vidro verde, etiquetados com sua caligrafia minúscula. Havia uma
prateleira inteira dedicada a pedidos de desculpas, duas para despedidas e uma,
trancada, para coisas que as pessoas haviam dito a seus mortos.
Se você perdesse uma memória, havia
boas chances de Barnaby tê-la guardado. Ele catalogava lembranças por ordem
alfabética de arrependimento, o que tornava seu arquivo bastante difícil de
consultar.
Jeremy, por sua vez, era o bruxo do
Vento Esquecido.
Era alto, magro e tinha cabelos que
continuavam se movendo mesmo quando não havia vento algum. Conversava com
tempestades que haviam passado um século antes, escutava o que as folhas diziam
umas às outras e, em certas noites, acordava com o gosto de lugares onde jamais
estivera.
Flutuava alguns centímetros acima do
chão quando estava aborrecido.
Naquela terça-feira, estava
particularmente aborrecido.
O chá de flor-de-lua havia acabado. O
vento do norte se recusava a responder às suas perguntas. E Barnaby estava há
quarenta minutos explicando que uma colher de prata não deveria ser usada para
mexer açúcar, porque o açúcar tinha uma memória longa e uma natureza vingativa.
Foi então que alguém bateu à porta.
Os irmãos se entreolharam.
As boas notícias, como todos sabem,
entram pelas janelas. As notícias ruins batem à porta. As notícias realmente
terríveis costumam já estar sentadas à mesa quando você chega para o jantar.
Barnaby fechou o livro que estava
lendo.
— Se for o cobrador de impostos, não
estamos em casa.
— Não estamos em casa — concordou
Jeremy.
— Estamos na casa?
Jeremy olhou ao redor, para as
paredes, o teto e a chaleira que começava a assobiar.
— Tecnicamente.
— Então estamos de acordo.
Bateram outra vez.
Barnaby suspirou e abriu a porta.
Havia uma menina na soleira. Usava um
casaco amarelo tão brilhante que parecia ter sido costurado com um pedaço do
próprio sol. Trazia uma mochila nas costas e mantinha o queixo erguido com a
determinação de quem já havia chorado tudo o que podia chorar e descoberto que
o mundo continuava indiferente.
Não devia ter mais de nove anos.
Seus olhos, porém, eram cinzentos.
Tinham a cor do mar depois que todos os navios partiram.
— Vocês são os bruxos? — perguntou
ela.
Barnaby ajustou os óculos.
— Depende. Quem quer saber?
— Eu.
— Uma resposta bastante incompleta.
— Meu irmão desapareceu.
Barnaby esperou.
— Entrou no Espelho de Verão —
continuou a menina. — E não voltou. Agora o espelho só mostra a minha cara.
Ela fez uma pausa.
— Estou ficando cansada dela.
Jeremy surgiu atrás do irmão,
flutuando acima do assoalho.
Ao ouvir o nome do espelho, parou de
sorrir.
— O Espelho de Verão — disse ele.
Sua voz tinha o som de folhas secas
arrastadas por um pátio vazio.
— É aquele que o Povo do Subsolo
vendeu por três moedas de prata e uma mentira bem contada?
— Quatro moedas — corrigiu Barnaby. —
E a mentira dizia respeito à cor do céu.
— Ah. Aquele.
— Uma fraude lamentável.
A menina olhou de um para o outro.
— Vocês podem trazer meu irmão de
volta?
Os irmãos Hemlock conheciam o Espelho
de Verão.
Conheciam-no bem o bastante para não
gostar dele.
O Verão do espelho não era uma
estação. Era um lugar. Uma extensão interminável de prados dourados, árvores
carregadas de frutos e tardes que jamais terminavam. O sol brilhava sobre tudo
com uma doçura quase dolorosa. A relva era macia. A água tinha gosto de mel. E
o tempo, lá dentro, não passava exatamente: derretia.
Quem entrava sem uma corda amarrada à
cintura começava a esquecer.
Primeiro esquecia o caminho de volta.
Depois, o próprio nome.
Por fim, esquecia que alguma vez
havia existido qualquer coisa além daquele calor agradável, daquele céu sem
nuvens e da promessa de que a felicidade duraria só mais um pouquinho.
Algumas pessoas passavam séculos ali
dentro.
Outras passavam apenas uma tarde.
A diferença, segundo Jeremy, era que
algumas almas apodreciam mais devagar do que outras.
— Nós não trabalhamos de graça —
disse Barnaby.
A menina não se moveu.
— A magia exige uma troca justa. É
uma regra muito antiga.
— Quanto custa?
Barnaby gostou da pergunta. Pessoas
que perguntavam o preço antes de ouvir a resposta costumavam ser sensatas.
Pessoas sensatas raramente precisavam de bruxos.
— O que você trouxe?
A menina abriu a mochila. Retirou um
lenço de pano e o desdobrou com cuidado.
Dentro havia uma chave de ferro
enferrujada e um botão branco, feito de osso de baleia.
A chave era grande, antiga e manchada
por alguma coisa que não parecia ser ferrugem. O botão era pequeno e liso, com
quatro furos escurecidos pelo uso.
— A chave abre o sótão da casa da
minha avó — disse ela. — Está fechado há oitenta anos. Ninguém sabe o que tem
lá dentro.
Barnaby inclinou a cabeça.
— E o botão?
— É meu.
— Isso eu percebi.
— Era do meu casaco favorito. O
casaco ficou pequeno. Minha avó disse que eu podia jogar o botão fora, mas não
quis.
Ela apertou os dedos contra a palma
da mão.
— É só um botão.
Os irmãos ficaram em silêncio.
Na casa dos Hemlock, o silêncio não
era ausência de som. Era uma espécie de criatura que se instalava entre as
coisas e aguardava. Naquela manhã, o silêncio sentou-se sobre a mesa, cheirou o
chá frio e decidiu ficar.
Barnaby examinou a chave.
Depois, examinou o botão.
Por fim, devolveu a chave à menina e
fechou os dedos em torno do botão de osso.
— Ficamos com este.
A menina pareceu confusa.
— Mas a chave é muito mais valiosa.
— Naturalmente — disse Barnaby.
— Ela abre um sótão que ninguém vê há
oitenta anos.
— Exatamente.
— Então por que não a querem?
Barnaby guardou o botão no bolso do
casaco.
— Porque agora sabemos que existe um
sótão. Antes, ele podia conter qualquer coisa.
Jeremy assentiu, satisfeito.
— Um sótão fechado pode conter um
dragão, uma cidade inteira ou uma segunda versão do mundo. Um sótão aberto
contém, em geral, caixas velhas e um cheiro desagradável.
— Além disso — acrescentou Barnaby —,
um botão é uma coisa honesta. Serve para fechar o que deseja ficar fechado.
A menina pareceu prestes a protestar,
mas então perguntou:
— Vocês vão trazer meu irmão de
volta?
Jeremy já estava indo para a porta
dos fundos.
— Vamos tentar.
— Isso não é uma resposta.
— É a única que podemos dar antes de
saber se ainda existe um irmão para trazer de volta.
A menina empalideceu.
Barnaby lançou ao irmão um olhar
severo.
— Jeremy tem o hábito de confundir
sinceridade com boas maneiras. Não se preocupe. Se o menino ainda se lembrar de
que é um menino, temos boas chances.
— E se não lembrar?
— Nesse caso, precisaremos ser
educados.
Jeremy abriu a porta dos fundos.
Do outro lado não havia jardim, nem
cerca, nem a estrada de pedras que deveria contornar a casa.
Havia uma floresta.
Os salgueiros se curvavam sobre um
caminho de terra negra. A névoa rastejava entre seus troncos, e as folhas
pendiam imóveis, embora o vento soprasse com força suficiente para mover as
roupas dos irmãos.
No centro da floresta, encostado a
uma árvore morta, havia um espelho antigo.
A moldura era feita de madeira escura,
coberta de pequenas flores esculpidas. Algumas flores tinham pétalas de ouro.
Outras pareciam feitas de dentes.
A superfície refletia um campo de
relva dourada.
Ao longe, sob um céu de verão, alguma
coisa brilhava como água.
— O truque do Verão — disse Jeremy —
é que ele não parece uma armadilha.
A menina segurou a alça da mochila.
— Como ele parece?
Jeremy olhou para o espelho.
— Como o lugar onde você seria feliz
se pudesse ficar para sempre.
Barnaby tirou do bolso interno do
casaco um frasco de vidro verde. Era maior do que os outros, e o líquido escuro
em seu interior parecia absorver a luz.
No rótulo havia uma única palavra,
escrita em tinta preta.
OUTONO.
— Felizmente — disse ele —, trouxemos
uma estação mais sensata.
Retirou a tampa.
O som que saiu do frasco não era
exatamente um som. Era a lembrança de uma fogueira vista através da janela, o
farfalhar de folhas mortas sob os pés, o primeiro vento frio depois de um verão
comprido demais. Era o cheiro da terra antes da chuva e a tristeza agradável de
perceber que alguma coisa terminou.
O ar mudou.
O ouro do campo refletido no espelho
perdeu o brilho. A luz ficou pálida. As flores esculpidas na moldura se
contraíram como animais incomodados.
Jeremy ergueu as mãos.
O vento começou a girar em torno
dele.
Não era um vento novo. Era um vento
que já havia atravessado florestas antigas, derrubado telhados de aldeias
esquecidas e varrido os últimos passos de pessoas mortas havia séculos. Trazia
consigo o frio de montanhas sem nome e o cheiro de folhas que haviam caído
antes da invenção da escrita.
Jeremy soprou.
O Outono entrou no espelho.
Por um instante, o campo dourado
resistiu. O sol brilhou com mais força, como uma criança que percebe que alguém
veio buscá-la antes da hora de brincar.
Então a relva começou a escurecer.
As árvores perderam as folhas. O céu
se cobriu de nuvens. A superfície do espelho ondulou, e pequenas linhas de
geada se espalharam pelo vidro.
Do outro lado, alguém gritou.
A menina correu para a frente.
— É ele!
Uma mão surgiu através da superfície.
Depois, um braço.
Um menino caiu de joelhos sobre a
terra úmida, tossindo como se tivesse passado muito tempo debaixo d'água. Usava
uma camisa branca e calças curtas. Seus cabelos estavam cheios de pequenas
flores amarelas, e ele apertava contra o peito um punhado de relva dourada.
A menina se jogou sobre ele.
Os dois se abraçaram com tanta força
que Barnaby, que não gostava de demonstrações emocionais prolongadas, precisou
olhar para o outro lado.
O menino piscou diante da luz
cinzenta do mundo.
— Estava tão quente — murmurou.
A menina começou a chorar.
— Você sumiu.
— Eu sei.
— Eu chamei você.
— Eu sei.
— Você não respondeu.
O menino olhou para a relva que
trazia nas mãos.
A grama dourada se desfez entre seus
dedos, transformando-se numa poeira fina que o vento levou para longe.
Ele ficou observando o lugar onde
estivera o punhado de relva.
— Eu achei que só tinha passado uma
tarde.
Jeremy baixou as mãos. O vento parou.
— É assim que eles conseguem você —
disse ele. — Não roubam o seu tempo. Fazem você entregá-lo de bom grado.
O menino não respondeu.
Talvez ainda estivesse se lembrando
de alguma coisa. Talvez estivesse tentando descobrir se o sol que vira lá
dentro era mais verdadeiro do que aquele que jamais voltaria a ver.
Barnaby tampou o frasco.
O espelho emitiu um pequeno estalo.
Uma rachadura atravessou a superfície, do alto até a base, e o campo de verão
desapareceu.
Por um momento, o vidro mostrou
apenas o reflexo dos quatro: dois bruxos, uma menina de casaco amarelo e um
menino que tinha flores mortas nos cabelos.
Então mostrou uma quinta figura.
Uma mulher alta, vestida de branco,
parada muito longe, no meio de um campo que já não existia.
Barnaby virou-se depressa.
Quando tornou a olhar, a figura havia
desaparecido.
— O que foi? — perguntou Jeremy.
— Nada.
Barnaby não gostava de mentir para o
irmão. Mas gostava ainda menos de explicar certas coisas antes de ter certeza
de que eram reais.
E, naquela floresta, havia coisas que
se tornavam reais simplesmente porque alguém lhes dava atenção.
— Vamos embora — disse ele.
As crianças obedeceram.
A menina segurou a mão do irmão. Ele
caminhou devagar, tropeçando de vez em quando, como alguém que precisasse
reaprender o peso do próprio corpo. Antes de desaparecer na névoa, ela se
voltou para os Hemlock.
— Obrigada.
Barnaby fez um gesto com a cabeça.
— Não olhem para espelhos antigos sem
antes perguntar o nome das mães deles.
O menino franziu a testa.
— Espelhos têm mães?
— Todos temos — respondeu Barnaby. —
Alguns de nós têm a decência de não falar sobre isso.
As crianças desapareceram entre os
salgueiros.
Por algum tempo, os irmãos
permaneceram em silêncio.
A floresta começou a se desfazer nas
bordas. Os galhos ficaram transparentes. A névoa subiu do chão como fumaça, e o
caminho de terra negra tornou-se uma lembrança de caminho.
Jeremy olhou para o céu.
— Você acha que fizemos um bom
negócio?
Barnaby tocou o bolso onde guardara o
botão.
— Recuperamos uma criança, impedimos
que o Verão se espalhasse e adquirimos um botão perfeitamente decente.
— Perdemos a chave.
— Não perdemos. Devolvemos.
— Uma chave para um sótão fechado há
oitenta anos.
— Sim.
— Um sótão que pode conter qualquer
coisa.
Barnaby suspirou.
— Jeremy, se você continuar falando
sobre esse sótão, vou começar a imaginar o que há dentro dele.
— E isso seria ruim?
Barnaby olhou para a névoa.
— Imaginar é a maneira mais rápida de
abrir uma porta.
Voltaram para casa pela porta dos
fundos.
A casa já estava desaparecendo. As
paredes tremeluziam, e as escadas pareciam cansadas de sustentar os degraus. No
andar de cima, alguma coisa pesada foi arrastada pelo chão, embora os irmãos
não tivessem móveis pesados no andar de cima.
A terça-feira estava chegando ao fim.
Jeremy preparou chá com as últimas
folhas de alfazema. Barnaby sentou-se à mesa e tirou o botão do bolso,
examinando-o sob a luz fraca da cozinha.
Havia alguma coisa gravada na parte
de trás.
Quatro letras minúsculas, tão gastas
que ele precisou aproximar o botão dos olhos.
Não eram letras de nenhum alfabeto
que conhecesse.
Barnaby franziu a testa.
— Jeremy?
O irmão não respondeu.
Estava olhando para a janela.
Do lado de fora, onde a floresta já
havia desaparecido, soprava um vento morno. Tinha cheiro de pêssegos maduros e
relva recém-cortada.
Era um vento de verão.
E vinha de dentro da casa.
Barnaby fechou os dedos sobre o
botão.
— Acho — disse ele, muito devagar —
que fizemos um negócio melhor do que pensávamos.
Jeremy virou-se para o irmão.
— Por quê?
Barnaby sorriu, mas não foi um
sorriso agradável.
— Porque acho que o botão não era
dela.
Naquele instante, alguma coisa bateu
à porta do sótão.
Uma vez.
Duas.
Na terceira, os irmãos ouviram uma
voz feminina, muito distante, chamando por alguém que ambos conheciam.
A casa inteira estremeceu.
Então, com um estalo de madeira velha,
desapareceu.
No lugar onde estivera, restaram
apenas um poço cego, o cheiro doce da alfazema e uma pequena folha amarela que
o vento levou para longe.
Em algum lugar, muito longe, uma
mulher continuou batendo à porta.
E, pela primeira vez em oitenta anos,
alguém respondeu.
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