Personagens:
Senhor Sapo Ponpon: Um sapo nobre, severo e cobrador moral, trajando pesados mantos de seda vermelha e verde. Usa uma maquiagem marcante (Kumadori) com linhas retas e focado no dever da justiça.
Raposa Domodomo: Um mestre da esquiva e da vaidade, vestindo quimono elegante porém puído nas pontas. A maquiagem enfatiza olhos astutos e contornos finos.
Urso Ferreiro Jon: Um urso corpulento e de coração nobre, mestre do martelo e da forja. Rosto pintado em tons de terra e bronze, simbolizando a terra, a retidão e o trabalho.
Duas Filhas do Ferreiro (Figurações/Coreografia): Jovens ursas silenciosas no fundo do palco, tecendo véus enquanto aguardam seus destinos.
O Coro/Narrador (Jōruri): Acompanhado pelo ritmo forte do Shamisen e batidas de blocos de madeira (Ki).
CENA I: O Ritmo do Bigorna
(O palco se ilumina sob
uma luz dourada e enfumaçada. No canto direito, a forja de Jon. O som ritmado de batidas de
madeira ecoa: CLAC-CLAC-CLAC)
CORO: (Declamado com gravidade)
Nas terras antigas de bosques profundos, onde cada alma carrega um fardo ou um
tostão, a forja de Jon canta o peso dos dias!
(Jon segura o martelo
com força, faz uma pose estilizada — Mie
— parando o olhar fixo no público com solenidade).
JON: (Voz profunda, operística e ritmada)
Fogo que derrete o ferro, não derrete a solidão! Eu forjo a lâmina da retidão,
mas quem forjará o lar para o meu sangue? Tenho duas filhas de pele quente e
olhar sagrado, Qual cavaleiro do bosque virá resgatar seus corações do
esquecimento?
(Jon bate o martelo na
bigorna ao ritmo do música, cantando com nostalgia estilo Lewisiana):
"Quem comprará o
ouro que não se deteriora? Quem pedirá a mão das minhas filhas sem ganância no olhar? A beleza passageira engana como a névoa da
manhã, Mas a virtude de uma
noiva permanece como a rocha do Criador! Oh, pretendentes do mundo, olhai para a honra, e não para a
ilusão!"
CENA II: A Cobrança da Lei
(O ritmo da música muda
brancamente para um tom seco e tenso. Do lado esquerdo, entra o Senhor Sapo Ponpon, caminhando com
passos exagerados, pesados e calculados — estilo Roppō).
PONPON: (Sapo faz uma pausa dramática,
virando o leque com um estalo rápido) Rios correm para o mar, e toda
dívida corre para o ajuste de contas! A palavra dada não é folha seca que o
vento leva; é pedra gravada no firmamento!
(Ponpon caminha até a
casa de Domodomo. A Raposa está
reclinada sob uma sombrinha, tentando parecer despreocupada, mas tremendo os
pés).
PONPON: (Gritando com autoridade
dramática) Domodomo! Mestre dos atalhos e das promessas de vento! O
tempo das desculpas expirou. Eu vim buscar o que pertence à justiça!
DOMODOMO: (Levanta-se suavemente,
deslizando como uma sombra, usando o leque para cobrir metade do rosto)
Ah... Nobre Senhor Ponpon! Por que tanta pressa em um mundo tão vasto? A
dívida... ora, a dívida é apenas uma ponte entre amigos. Por que destruí-la com
tanta frieza? Amanhã a colheita virá, e o ouro fluirá como água!
PONPON: (Faz uma pose Mie feroz, arregalando os olhos e
inclinando a cabeça) Iya!
(Não!) O 'Amanhã' é o refúgio dos enganadores! Aquele que vive de tomadas
emprestadas sem intenção de pagar vendeu a própria alma por um banquete de
ilusão. Pague o que deve, ou o peso do seu engano o afundará no lamaçal da
vergonha!
CENA III: O Encontro dos Destinos
(A Raposa se esgueira
para perto da forja de Jon, tentando usar a comoção da música do Urso para se
esquivar de Ponpon).
DOMODOMO: (Sussurrando para o público)
Se eu puder casar com uma das filhas do Ferreiro Jon, o ouro do dote pagará a
soberba deste Sapo!
(Domodomo se aproxima de
Jon com falsa reverência).
DOMODOMO: Grande Jon! Eu ouvi sua canção! Eu sou o nobre pretendente que busca a
virtude de suas filhas!
(Jon para o martelo no
ar. Ponpon se aproxima a passos largos).
JON: (Olhando fixamente para
Domodomo) Um verdadeiro noivo traz as mãos calejadas de trabalho ou o
coração limpo de enganos. O que trazes em teu peito, Raposa?
PONPON: (Interrompendo com voz de
trovão) Ele traz correntes ocultas! Aquele que não é fiel no pouco com
seu credor, jamais será fiel no muito com sua esposa! Não edifique um lar sobre
o alicerce do engano!
(Ponpon aponta o leque
fechado diretamente para o peito de Domodomo. O som dos blocos de madeira bate
acelerado: CLAC-CLAC-CLAC-CLAC).
CORO: A máscara caiu! A vaidade foi desnudada sob a luz da verdade!
(Domodomo cai de
joelhos, derrotado pela força moral da presença de Ponpon e Jon).
DOMODOMO: (Abaixando a cabeça) Eu
me curvo... A lei é mais pesada que minhas astúcias...
JON: (Com compaixão austera)
Aqueça-se na minha forja, Raposa. Trabalhe ao meu lado, pague o Senhor Ponpon
com o suor do teu rosto, e talvez um dia aprendas o valor de ser um homem de
verdade.
PONPON: (Abre o leque suavemente, mostrando
uma pintura de uma flor de lótus) Quando a dívida é quitada com honra,
até o lamaçal se torna jardim.
(Todos os personagens
fazem uma grande pose final conjunta (Gattai
Mie): Jon segurando o martelo elevado, Ponpon com o leque aberto em
postura ereta, e Domodomo curvado em atitude de redenção. As luzes se apagam
gradativamente enquanto o Shamisen toca as últimas notas).
FIM

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