terça-feira, 20 de outubro de 2026

A Dívida na Toca e a Canção do Forjador - tentativa de Kabuki

 


Personagens:

Senhor Sapo Ponpon: Um sapo nobre, severo e cobrador moral, trajando pesados mantos de seda vermelha e verde. Usa uma maquiagem marcante (Kumadori) com linhas retas e focado no dever da justiça.

Raposa Domodomo: Um mestre da esquiva e da vaidade, vestindo quimono elegante porém puído nas pontas. A maquiagem enfatiza olhos astutos e contornos finos.

Urso Ferreiro Jon: Um urso corpulento e de coração nobre, mestre do martelo e da forja. Rosto pintado em tons de terra e bronze, simbolizando a terra, a retidão e o trabalho.

Duas Filhas do Ferreiro (Figurações/Coreografia): Jovens ursas silenciosas no fundo do palco, tecendo véus enquanto aguardam seus destinos.

O Coro/Narrador (Jōruri): Acompanhado pelo ritmo forte do Shamisen e batidas de blocos de madeira (Ki).


CENA I: O Ritmo do Bigorna

(O palco se ilumina sob uma luz dourada e enfumaçada. No canto direito, a forja de Jon. O som ritmado de batidas de madeira ecoa: CLAC-CLAC-CLAC)

CORO: (Declamado com gravidade) Nas terras antigas de bosques profundos, onde cada alma carrega um fardo ou um tostão, a forja de Jon canta o peso dos dias!

(Jon segura o martelo com força, faz uma pose estilizada — Mie — parando o olhar fixo no público com solenidade).

JON: (Voz profunda, operística e ritmada) Fogo que derrete o ferro, não derrete a solidão! Eu forjo a lâmina da retidão, mas quem forjará o lar para o meu sangue? Tenho duas filhas de pele quente e olhar sagrado, Qual cavaleiro do bosque virá resgatar seus corações do esquecimento?

(Jon bate o martelo na bigorna ao ritmo do música, cantando com nostalgia estilo Lewisiana):


"Quem comprará o ouro que não se deteriora? Quem pedirá a mão das minhas filhas sem ganância no olhar? A beleza passageira engana como a névoa da manhã, Mas a virtude de uma noiva permanece como a rocha do Criador! Oh, pretendentes do mundo, olhai para a honra, e não para a ilusão!"


CENA II: A Cobrança da Lei

(O ritmo da música muda brancamente para um tom seco e tenso. Do lado esquerdo, entra o Senhor Sapo Ponpon, caminhando com passos exagerados, pesados e calculados — estilo Roppō).

PONPON: (Sapo faz uma pausa dramática, virando o leque com um estalo rápido) Rios correm para o mar, e toda dívida corre para o ajuste de contas! A palavra dada não é folha seca que o vento leva; é pedra gravada no firmamento!

(Ponpon caminha até a casa de Domodomo. A Raposa está reclinada sob uma sombrinha, tentando parecer despreocupada, mas tremendo os pés).

PONPON: (Gritando com autoridade dramática) Domodomo! Mestre dos atalhos e das promessas de vento! O tempo das desculpas expirou. Eu vim buscar o que pertence à justiça!

DOMODOMO: (Levanta-se suavemente, deslizando como uma sombra, usando o leque para cobrir metade do rosto) Ah... Nobre Senhor Ponpon! Por que tanta pressa em um mundo tão vasto? A dívida... ora, a dívida é apenas uma ponte entre amigos. Por que destruí-la com tanta frieza? Amanhã a colheita virá, e o ouro fluirá como água!

PONPON: (Faz uma pose Mie feroz, arregalando os olhos e inclinando a cabeça) Iya! (Não!) O 'Amanhã' é o refúgio dos enganadores! Aquele que vive de tomadas emprestadas sem intenção de pagar vendeu a própria alma por um banquete de ilusão. Pague o que deve, ou o peso do seu engano o afundará no lamaçal da vergonha!


CENA III: O Encontro dos Destinos

(A Raposa se esgueira para perto da forja de Jon, tentando usar a comoção da música do Urso para se esquivar de Ponpon).

DOMODOMO: (Sussurrando para o público) Se eu puder casar com uma das filhas do Ferreiro Jon, o ouro do dote pagará a soberba deste Sapo!

(Domodomo se aproxima de Jon com falsa reverência).

DOMODOMO: Grande Jon! Eu ouvi sua canção! Eu sou o nobre pretendente que busca a virtude de suas filhas!

(Jon para o martelo no ar. Ponpon se aproxima a passos largos).

JON: (Olhando fixamente para Domodomo) Um verdadeiro noivo traz as mãos calejadas de trabalho ou o coração limpo de enganos. O que trazes em teu peito, Raposa?

PONPON: (Interrompendo com voz de trovão) Ele traz correntes ocultas! Aquele que não é fiel no pouco com seu credor, jamais será fiel no muito com sua esposa! Não edifique um lar sobre o alicerce do engano!

(Ponpon aponta o leque fechado diretamente para o peito de Domodomo. O som dos blocos de madeira bate acelerado: CLAC-CLAC-CLAC-CLAC).

CORO: A máscara caiu! A vaidade foi desnudada sob a luz da verdade!

(Domodomo cai de joelhos, derrotado pela força moral da presença de Ponpon e Jon).

DOMODOMO: (Abaixando a cabeça) Eu me curvo... A lei é mais pesada que minhas astúcias...

JON: (Com compaixão austera) Aqueça-se na minha forja, Raposa. Trabalhe ao meu lado, pague o Senhor Ponpon com o suor do teu rosto, e talvez um dia aprendas o valor de ser um homem de verdade.

PONPON: (Abre o leque suavemente, mostrando uma pintura de uma flor de lótus) Quando a dívida é quitada com honra, até o lamaçal se torna jardim.

(Todos os personagens fazem uma grande pose final conjunta (Gattai Mie): Jon segurando o martelo elevado, Ponpon com o leque aberto em postura ereta, e Domodomo curvado em atitude de redenção. As luzes se apagam gradativamente enquanto o Shamisen toca as últimas notas).


FIM

 

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