domingo, 11 de outubro de 2026

Kenji

     A neblina  não era feita de água vaporizada, mas sim de lembranças não contadas e suspiros esquecidos. Quem pisava ali costumava perder o próprio nome na terceira passada e a noção da direção no quinto passo.


    Kenji, um garoto cujos bolsos viviam cheios de pedras com formatos curiosos, caminhava com cuidado, sentindo o ar denso e acinzentado envolver seus ombros como um manto pesado. Ao seu redor, as árvores sem folhas pareciam sussurrar segredos em uma língua que se desfazia antes de alcançar os ouvidos.


— Não há nada aqui, murmurou para si mesmo, mas a própria voz soou como se pertencesse a um estranho.


        A névoa começou a se fechar em espirais apertadas, mesclando o mundo real com a substância incerta dos devaneios. Bastian já não sabia se seus pés tocavam o chão de terra úmida ou se flutuavam por entre as páginas de um livro gigante que alguém esquecera aberto na chuva.


    Foi exatamente nesse instante em que a dúvida quase o fez adormecer para sempre que ele disse em voz alta:


— Entre a névoa e o sonho vejo o luar de repente.


E como se as palavras tivessem a força magnética de um feitiço esquecido, o véu cinzento se rasgou.


    Lá no alto, no céu de um azul quase negro e profundo, uma lua prateada e perfeitamente redonda emergiu. Sua luz não era fria; tinha o tom radiante do metal recém-polido e o calor de uma lanterna na escuridão. Ao tocar o chão, a luz do luar transformou a névoa em mil pequenas mariposas de cristal que levantaram voo todas de uma vez, deixando o caminho adiante completamente claro e cintilante.


        Kenji  sorriu, ajustou a alça da mochila e voltou a andar, sabendo que no reino da imaginação até a noite mais densa guarda um raio de luz à espera da palavra certa

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