terça-feira, 20 de outubro de 2026

Malina e as Terras do Fim do Mundo


Na noite em que Malina encontrou a porta, chovia para cima.

 

Não era uma maneira de dizer. A água subia das poças em pequenos fios prateados, escorria das pedras para o céu e desaparecia entre as nuvens, como se alguém, lá em cima, estivesse recolhendo a chuva para guardá-la em garrafas. Malina ficou olhando por algum tempo. Depois decidiu que não tinha obrigação de compreender o comportamento da chuva, sobretudo quando estava atrasada para chegar em casa.

 

Foi então que viu a porta.

 

Estava entre duas árvores no limite do bosque, onde, até a véspera, havia apenas um muro de pedras coberto de musgo. Era uma porta estreita, de madeira escura, com uma maçaneta de latão em forma de mão fechada. Não tinha dobradiças visíveis, nem fechadura. No centro, alguém havia entalhado um pequeno coração.

 

Malina aproximou-se.

 

— Você está perdida? — perguntou uma voz do outro lado.

 

Ela recuou.

 

— Eu ia perguntar a mesma coisa.

 

Houve um silêncio. Depois, a voz respondeu:

 

— Nesse caso, talvez possamos nos ajudar.

 

Malina deveria ter ido embora. Havia aprendido, como todas as crianças aprendem, que não se deve conversar com desconhecidos. O que ninguém lhe explicara era o que fazer quando os desconhecidos moravam dentro de portas que não existiam na semana anterior.

 

A mão de latão abriu-se.

 

Dentro dela havia uma chave.

 

Malina pegou-a, introduziu-a no lugar onde deveria existir uma fechadura e girou.

 

Do outro lado, não havia uma casa, nem um corredor, nem qualquer coisa que pudesse ser considerada razoável. Havia um campo amarelo sob um céu verde-escuro, e ao longe uma estrada de tijolos negros seguia em direção a montanhas que pareciam ter sido desenhadas por alguém que nunca vira montanhas de verdade.

 

Ela atravessou.

 

A porta fechou-se atrás dela.

 

Quando se virou, não havia porta alguma.

 

A chuva, ali, caía para baixo.

 

Malina suspirou.

 

— Muito bem — disse. — Isso é inconveniente.

 

— É o que todos dizem na primeira vez.

 

A voz vinha de um espantalho sentado à beira da estrada.

 

Ele usava um casaco de lã remendado, calças de um homem muito mais alto e um chapéu de palha que já vira verões melhores. A palha escapava de seus punhos e do colarinho, mas o rosto era feito de tecido cinzento, com dois botões negros no lugar dos olhos e uma linha torta de barbante formando a boca.

 

O espantalho inclinou a cabeça.

 

— Você poderia me fazer um favor?

 

— Depende.

 

— Preciso encontrar o mago Dunto.

 

— E por que eu ajudaria você?

 

O espantalho levou a mão ao peito. Por um instante, Malina ouviu algo bater dentro dele. Não era um coração. Era um som seco, semelhante ao de uma porta batendo ao vento.

 

— Porque eu já fui um homem — respondeu ele. — E, se não encontrar Dunto, temo que me esqueça disso.

 

Malina olhou para a estrada.

 

— Onde ele mora?

 

— Nas Terras do Fim do Mundo.

 

— Isso parece longe.

 

— É mais longe do que parece.

 

— E você sabe o caminho?

 

O espantalho sorriu. O barbante de sua boca esticou-se de maneira desagradável.

 

— Naturalmente.

 

— Então por que precisa de mim?

 

Ele ficou em silêncio por tanto tempo que Malina começou a pensar que a pergunta o havia ofendido.

 

— Porque o caminho muda quando estou sozinho.

 

Malina não sabia se aquilo era verdade. Também não sabia se queria descobrir. Mas o espantalho parecia triste, e ela tinha uma fraqueza por coisas tristes, especialmente quando não pediam muito.

 

— Tudo bem — disse ela. — Vou com você até encontrarmos o mago.

 

— Você é muito gentil.

 

— Não sou. Só estou curiosa.

 

— É assim que a gentileza começa, na maioria das vezes.

 

Malina decidiu que não gostava daquela resposta.

 

Ainda assim, seguiram juntos.

 

A estrada atravessava campos onde flores de vidro cresciam entre as pedras. Quando o vento soprava, elas tilintavam como pequenos sinos, e alguma coisa, muito distante, respondia ao som.

 

Na primeira noite, acamparam sob uma árvore cujos galhos cresciam para dentro da terra. Malina dormiu pouco. O espantalho permaneceu sentado, olhando para o fogo.

 

— Como você se chamava quando era homem? — perguntou ela.

 

Ele demorou a responder.

 

— Elias.

 

— E o que aconteceu com você?

 

— Cometi um erro.

 

— Que erro?

 

— Acreditei que pudesse ser amado sem precisar amar ninguém.

 

Malina virou-se de lado.

 

— Isso não parece motivo para virar um espantalho.

 

— Não foi o motivo. Foi o começo.

 

Ele não disse mais nada.

 

Na manhã seguinte, encontraram o Homem Salgueiro.

 

Ele crescia no meio da estrada.

 

A princípio, Malina pensou que fosse apenas uma árvore muito antiga, de tronco largo e galhos compridos, cobertos por folhas finas que pendiam como cabelos molhados. Então o tronco se curvou. Duas raízes se soltaram da terra e se transformaram em pernas. Uma fenda abriu-se na casca, revelando uma boca cheia de dentes pequenos e brancos.

 

— Bom dia, viajantes — disse o Homem Salgueiro.

 

Sua voz parecia vir de um poço.

 

— Não há nada de bom neste dia — respondeu o espantalho.

 

— Ah, Elias. Sempre tão mal-educado.

 

Malina olhou para seu companheiro.

 

— Você o conhece?

 

— Ele conhece todo mundo — disse Elias. — Principalmente aqueles que prefeririam não ser conhecidos.

 

O Homem Salgueiro inclinou-se para Malina. Um dos galhos roçou seu cabelo.

 

— Uma menina viva. Que raridade. Há quanto tempo você não visita sua mãe?

 

Malina sentiu o estômago apertar.

 

— Como sabe que tenho mãe?

 

— Todas as meninas têm mães, querida. Até aquelas que não se lembram delas.

 

O espantalho agarrou o pulso de Malina.

 

— Não responda às perguntas dele.

 

O Homem Salgueiro riu. Suas folhas estremeceram, embora não houvesse vento.

 

— Ele tem medo de mim porque sabe o que faço com homens que desejam voltar a ser homens.

 

— Você não faz nada — disse Elias.

 

— Ainda não.

 

O caminho estava bloqueado. Atrás da criatura, a estrada desaparecia numa floresta de troncos brancos.

 

— Para passar — anunciou o Homem Salgueiro —, cada um deve me dar uma lembrança.

 

— Não temos lembranças para você — disse Malina.

 

— Todos têm. O segredo é descobrir qual delas vale mais.

 

A criatura estendeu um galho em sua direção.

 

Malina pensou na cozinha de sua casa, no cheiro de pão quente, na voz de sua mãe chamando-a para o jantar. Pensou na tarde em que aprendera a andar de bicicleta e na primeira vez em que vira o mar.

 

O galho avançou.

 

Então ela fez algo que não sabia ser possível.

 

Lembrou-se de uma coisa que nunca acontecera.

 

Viu a si mesma, muito velha, sentada numa cadeira junto à janela, observando um jardim coberto de neve. Na imagem, havia um homem ao seu lado, mas ela não conseguia ver seu rosto. Ele segurava sua mão.

 

Malina não sabia de quem era aquela lembrança. Mesmo assim, doeu perdê-la.

 

O Homem Salgueiro fechou os dedos em torno do ar.

 

Por um instante, seus olhos apareceram na casca: dois buracos profundos, cheios de uma escuridão sem fundo.

 

— Que coisa interessante — murmurou. — Você carrega futuros que ainda não aconteceram.

 

— Deixe-nos passar.

 

A criatura afastou os galhos.

 

— Vão, então. Mas cuidado com o que desejam encontrar nas Terras do Fim do Mundo. Às vezes, o fim é apenas uma porta que se recusa a abrir.

 

Quando se afastaram, Malina percebeu que Elias tremia.

 

— O que ele quis dizer com voltar a ser homem?

 

O espantalho ajeitou o chapéu.

 

— Que ele sabe mais sobre mim do que eu gostaria.

 

— Isso não é uma resposta.

 

— É a única que tenho.

 

Malina não insistiu. Mas, naquela noite, sonhou com uma árvore que tinha o rosto de um homem e um homem que tinha o coração de uma árvore.

 

Três dias depois, chegaram a uma cidade que não aparecia em nenhum mapa.

 

As casas eram pequenas, pintadas de azul, e tinham janelas redondas. Não havia portas nas fachadas, apenas chaminés que soltavam fumaça colorida. Os habitantes usavam máscaras de animais e caminhavam de costas, como se estivessem sempre tentando voltar para algum lugar.

 

No centro da cidade havia uma fonte seca.

 

Sentado em sua borda estava um duende.

 

Era menor que Malina, mas muito mais velho do que parecia. Tinha orelhas compridas, botas vermelhas e um casaco verde com tantos bolsos que poderia esconder uma casa inteira. Seus dentes brilhavam como moedas recém-polidas.

 

— Que colar bonito — disse ele.

 

Malina levou a mão ao pescoço.

 

O colar era de prata, com um pequeno coração de pedra vermelha. Sua mãe lhe dera quando ela era pequena, dizendo apenas que deveria usá-lo sempre e nunca o entregar a ninguém.

 

— Obrigada — respondeu Malina.

 

— Posso ver?

 

— Não.

 

O duende pareceu genuinamente magoado.

 

— Que maneiras terríveis. No meu tempo, as crianças eram educadas.

 

— No seu tempo, você provavelmente roubava crianças — disse Elias.

 

— Só as mal-educadas.

 

O duende apresentou-se como Senhor Pinhão e ofereceu-lhes hospedagem, comida e um mapa das Terras do Fim do Mundo. Em troca, pediu apenas que Malina lhe mostrasse o colar.

 

— Não — repetiu ela.

 

— Então talvez você prefira uma troca. Dou-lhe uma moeda de ouro pelo colar.

 

— Não.

 

— Duas moedas.

 

— Não.

 

— Três moedas e um segredo.

 

Malina quase perguntou que segredo seria aquele, mas o espantalho apertou-lhe o ombro.

 

— Não aceite nada dele.

 

O Senhor Pinhão sorriu.

 

— Ah, Elias. Você sempre estraga as brincadeiras.

 

Naquela noite, Malina acordou com a sensação de que alguém tocava seu pescoço.

 

Abriu os olhos.

 

O duende estava sentado sobre seu peito, segurando uma pequena faca de prata. Com a outra mão, tentava soltar o fecho do colar.

 

— O que está fazendo?

 

O Senhor Pinhão congelou.

 

— Procurando uma coisa.

 

— No meu pescoço?

 

— É um lugar tão bom quanto qualquer outro.

 

Malina agarrou-lhe o pulso. O duende era surpreendentemente forte.

 

— Solte!

 

— Não seja egoísta, menina. Você não sabe o que carrega.

 

— É um colar!

 

— Não. É uma fechadura.

 

O espantalho apareceu à porta, segurando uma lamparina.

 

À luz amarela, o duende mostrou seu verdadeiro rosto. A pele enrugou-se, os olhos tornaram-se fundos e a boca abriu-se muito além do que um rosto deveria permitir. Lá dentro, Malina viu pequenas coisas se mexendo: anéis, dentes de leite, retratos, chaves e dezenas de corações minúsculos.

 

— Devolva o que roubou — disse Elias.

 

O duende saltou para o chão.

 

— E você? O que pretende devolver? Sua vida? Seu nome? A mulher que deixou esperando?

 

Elias ficou imóvel.

 

Malina aproveitou para puxar o colar de volta. A pedra vermelha brilhou em sua mão, e o duende soltou um grito que fez as janelas da cidade se abrirem todas ao mesmo tempo.

 

Então ele desapareceu por uma fresta no assoalho.

 

Na manhã seguinte, a cidade não existia mais.

 

Havia apenas a fonte seca e uma estrada que seguia para o norte.

 

Malina segurou o colar com força.

 

— Minha mãe sabia o que era isto?

 

— Talvez — respondeu Elias.

 

— Você sabe?

 

O espantalho olhou para a pedra vermelha.

 

— Sei que coisas assim não são feitas para serem encontradas por acaso.

 

— E o que ela abre?

 

Elias fitou o horizonte.

 

— Depende do que está trancado do outro lado.

 

O urso apareceu ao entardecer.

 

Era enorme, maior que qualquer urso que Malina já vira em livros ou ilustrações. Tinha o pelo negro, as patas cobertas de cicatrizes e olhos de um azul tão claro que pareciam feitos de gelo. Surgiu entre as rochas e rugiu, fazendo a estrada estremecer.

 

Elias empurrou Malina para trás.

 

— Corra.

 

— E você?

 

— Eu não posso correr.

 

— Isso é uma péssima hora para lembrar!

 

O urso avançou.

 

Malina correu mesmo assim, mas a criatura foi mais rápida. Saltou sobre uma pedra, atravessou a estrada e bloqueou sua passagem. O espantalho ficou para trás, erguendo os braços de palha como se pudesse deter uma montanha.

 

O urso ergueu a pata.

 

Malina fechou os olhos.

 

A pancada não veio.

 

Quando tornou a abri-los, viu que o urso estava ajoelhado diante dela. Uma lágrima escorria de seu olho azul.

 

— Por favor — disse ele.

 

A voz era humana.

 

Malina recuou.

 

— Você fala.

 

— Às vezes. Quando a maldição permite.

 

O urso baixou a cabeça.

 

— Meu nome é Aurel. Fui príncipe de um reino que já não existe. Minha madrasta desejava que eu me casasse com a filha de um rei vizinho. Eu amava outra pessoa. Ela me ofereceu uma escolha: casar-me com quem ela determinasse ou viver como um animal até que alguém me amasse por aquilo que eu era.

 

— E você escolheu o urso? — perguntou Malina.

 

— Escolhi a liberdade. Não compreendi o preço.

 

Elias aproximou-se devagar.

 

— Há quanto tempo está assim?

 

— Setenta e três anos.

 

Malina ficou sem palavras.

 

— Mas você não parece ter setenta e três anos.

 

— Os ursos envelhecem de maneiras diferentes — respondeu Aurel. — E as maldições envelhecem de maneiras piores.

 

O príncipe contou-lhes que a única pessoa capaz de quebrar o feitiço era o mago Dunto, que vivia nas Terras do Fim do Mundo. O mesmo mago que Elias procurava.

 

— Então venha conosco — disse Malina.

 

O urso olhou para o espantalho.

 

— Você sabe quem ele é?

 

— Sei que é meu companheiro de viagem.

 

— Isso não foi o que perguntei.

 

Elias desviou os olhos.

 

Aurel soltou um suspiro pesado.

 

— Muito bem. Irei com vocês. Mas, quando chegarmos ao fim, cada um terá de responder por aquilo que trouxe consigo.

 

Malina não gostou da maneira como ele disse aquilo.

 

Começava a perceber que, naquele mundo, ninguém oferecia ajuda sem esperar alguma coisa em troca. Talvez fosse assim em todos os mundos. Talvez apenas ali as pessoas tivessem a honestidade de admitir.

 

As Terras do Fim do Mundo não ficavam no fim de uma estrada.

 

Ficavam no fim de todas elas.

 

Malina descobriu isso quando a paisagem começou a perder suas cores. O céu tornou-se branco. As árvores perderam as folhas. As pedras ficaram transparentes, revelando raízes que desciam para lugar nenhum.

 

Por fim, a estrada terminou diante de um precipício.

 

Do outro lado havia uma casa.

 

Era uma casa pequena, com telhado vermelho, uma chaminé fumegante e uma porta amarela. Estava suspensa no vazio, sem pilares ou cordas, como se o mundo tivesse simplesmente esquecido de fazê-la cair.

 

Não havia ponte.

 

— E agora? — perguntou Malina.

 

— Agora batemos — disse Elias.

 

— Na casa do outro lado de um abismo?

 

— Dunto aprecia formalidades.

 

Malina tirou o colar do pescoço.

 

A pedra vermelha começou a pulsar.

 

Uma linha de luz surgiu sobre o vazio, desenhando os contornos de uma ponte estreita. Quando a última pedra apareceu, Malina compreendeu por que o duende tentara roubá-lo.

 

O colar não era uma fechadura.

 

Era uma chave para lugares que não deveriam existir.

 

Atravessaram a ponte. O urso foi o último, caminhando com cuidado, pois as pedras estremeciam sob seu peso.

 

Quando chegaram à porta amarela, ela se abriu sozinha.

 

O mago Dunto estava sentado diante de uma mesa, tomando chá com uma caveira.

 

Era um homem pequeno, de barba branca e olhos escuros. Usava um roupão bordado com constelações e tinha um par de chifres minúsculos saindo da testa. Parecia decepcionantemente comum para alguém que morava no fim do mundo.

 

— Estão atrasados — disse ele.

 

— Esperava por nós? — perguntou Malina.

 

— Espero por todos. Nem todos chegam.

 

Dunto serviu três xícaras de chá. Depois olhou para o urso.

 

— Aurel, príncipe de coisa nenhuma. Setenta e três anos, quatro meses e nove dias. Ainda não aprendeu a não confiar em madrastas.

 

O urso rosnou.

 

— E você — disse Dunto, voltando-se para Elias. — Meu velho amigo.

 

O espantalho não respondeu.

 

Pela primeira vez desde que o conhecera, Malina percebeu que ele estava com medo de verdade.

 

— Você prometeu que me ajudaria — disse Elias.

 

— Prometi que lhe diria a verdade.

 

— Quero voltar a ser homem.

 

— Naturalmente.

 

— Pode fazer isso?

 

Dunto pousou a xícara.

 

— Posso.

 

O silêncio que se seguiu pareceu muito maior que a casa.

 

— Então faça — disse Elias.

 

— Há uma condição.

 

Malina sentiu um arrepio.

 

Dunto olhou para ela.

 

— Toda transformação exige uma troca. Para devolver a Elias o corpo que perdeu, alguém terá de entregar a própria sombra.

 

— Minha sombra? — perguntou Malina.

 

— Sua sombra guarda tudo aquilo que você ainda poderá ser. Sem ela, continuará viva, mas não poderá mudar. Nunca crescerá de verdade. Nunca se tornará alguém diferente da menina que é hoje.

 

Malina pensou na lembrança que perdera diante do Homem Salgueiro. Pensou no colar de sua mãe, nas estradas que havia atravessado e em tudo o que ainda não conhecia.

 

— Deve haver outra maneira.

 

— Sempre há outra maneira — disse Dunto. — Mas nem todas levam aonde desejamos.

 

Aurel ergueu a cabeça.

 

— E a minha maldição?

 

— Pode ser quebrada. Você precisa encontrar a pessoa que amava e descobrir se ela ainda o ama.

 

— Ela morreu há décadas — respondeu o urso.

 

— Então terá de descobrir o que o amor significa quando já não existe ninguém para recebê-lo.

 

Aurel baixou a cabeça.

 

Malina olhou para Elias.

 

— Você disse que queria voltar a ser homem. Por quê?

 

O espantalho demorou a responder.

 

— Porque fui covarde. Porque abandonei alguém que me amava. Porque passei todos esses anos tentando desfazer o que fiz, sem compreender que o tempo não volta atrás.

 

— Quem era ela?

 

— Uma mulher chamada Mara.

 

Dunto mexeu o chá.

 

— A mulher que ele abandonou morreu esperando por ele.

 

Elias fechou os olhos de botões.

 

— Eu sei.

 

— Não — disse Dunto. — Você sabe que ela morreu. Nunca compreendeu o que significa ter sido esperado.

 

O mago levantou-se e caminhou até uma janela que dava para o vazio.

 

— Malina, você pode devolver a ele a forma humana. Mas não pode devolver os anos que ele perdeu, nem as escolhas que fez. Se o fizer, ele será um homem novamente. Terá fome, frio, medo e uma vida que terminará. E continuará sendo o homem que abandonou Mara.

 

Malina olhou para o espantalho.

 

— E se eu não fizer nada?

 

— Ele continuará como está.

 

— Isso parece injusto.

 

Dunto sorriu.

 

— A justiça é uma palavra que os vivos inventaram para descrever as coisas que esperam que o mundo lhes deva.

 

Malina apertou o colar.

 

A pedra vermelha estava quente.

 

De repente, compreendeu o que o Homem Salgueiro quisera dizer. Os futuros que ainda não haviam acontecido. A lembrança de uma velhice que não era sua. A casa suspensa sobre o abismo.

 

Talvez o colar não abrisse portas.

 

Talvez mostrasse que todas as portas estavam abertas, o tempo todo, e que o difícil era escolher por qual delas atravessar.

 

Ela tirou o colar do pescoço e colocou-o sobre a mesa.

 

— Não vou entregar minha sombra.

 

Elias abaixou a cabeça.

 

— Eu entendo.

 

— Mas também não vou deixar você aqui.

 

Malina voltou-se para Dunto.

 

— Você disse que toda transformação exige uma troca. E se ele entregar alguma coisa?

 

O mago arqueou uma sobrancelha.

 

— O quê?

 

— A lembrança da pessoa que ele foi.

 

Dunto ficou imóvel.

 

Pela primeira vez, pareceu verdadeiramente surpreso.

 

— Se ele esquecer o homem que abandonou Mara, não será mais o mesmo homem. Não poderá recuperar o passado, porque nem sequer se lembrará dele.

 

— Mas ainda poderá escolher o que fazer daqui para a frente.

 

Dunto olhou para Elias.

 

— É uma possibilidade.

 

O espantalho ficou muito quieto.

 

— Se eu esquecer meu passado — perguntou ele —, o que restará de mim?

 

Malina pensou por um instante.

 

— O que você fizer com o que restar.

 

Lá fora, alguma coisa se moveu no vazio. Talvez fosse o vento. Talvez fosse o mundo mudando de ideia.

 

Elias estendeu os braços de palha.

 

— Faça.

 

Dunto ergueu as mãos.

 

A casa escureceu. As estrelas bordadas no roupão do mago começaram a girar, e a caveira sobre a mesa abriu a boca para cantar uma canção que Malina nunca ouvira, mas que, de alguma forma, a fez lembrar de casa.

 

O corpo de Elias se desfez em milhares de fios dourados.

 

A palha caiu no chão.

 

O chapéu tombou.

 

E, onde antes havia um espantalho, surgiu um homem de cabelos castanhos, mãos enrugadas e olhos cheios de lágrimas. Ele parecia ter quarenta anos, talvez um pouco mais. Não parecia jovem, nem velho. Parecia alguém que havia esperado muito tempo por alguma coisa e finalmente descobrira que ela não viria.

 

O homem olhou para as próprias mãos.

 

— Quem sou eu? — perguntou.

 

Dunto recolheu a palha do chão.

 

— Isso, meu caro, é a única pergunta que nunca poderei responder por você.

 

Aurel aproximou-se da janela. Seu reflexo apareceu no vidro, mas, por um instante, não era o de um urso. Era o de um jovem príncipe, com uma coroa torta e uma tristeza muito antiga nos olhos.

 

Malina percebeu que a maldição dele também começava a se desfazer.

 

Não porque alguém o amasse.

 

Mas porque, pela primeira vez em setenta e três anos, ele não estava pedindo que outra pessoa o salvasse.

 

— Vou encontrá-la — disse Aurel.

 

— A mulher que você amava? — perguntou Malina.

 

— Não. O lugar onde ela viveu. Quero saber quem ela foi, para além da lembrança que guardei dela. Quero conhecer a vida que teve sem mim.

 

Dunto assentiu.

 

— Isso é um começo.

 

Quando Malina deixou as Terras do Fim do Mundo, o céu havia voltado a ser azul.

 

Aurel seguiu por uma estrada que levava às ruínas de seu antigo reino. Elias, agora homem, escolheu acompanhá-lo. Não se lembrava de Mara, mas sabia que havia sido alguém capaz de abandonar uma pessoa que o amava. Por enquanto, aquilo era suficiente para lhe dar motivos para continuar.

 

Malina caminhou sozinha até o lugar onde a ponte havia aparecido.

 

O colar de pedra vermelha ainda estava em sua mão.

 

— Você não vai precisar dele por algum tempo — disse Dunto, surgindo atrás dela.

 

Malina quase gritou.

 

— Você não pode simplesmente aparecer assim!

 

— Posso, sim. Sou mago.

 

— Isso não significa que deva fazer.

 

Dunto pareceu considerar a observação.

 

— É uma crítica justa.

 

Ele apontou para o colar.

 

— Guarde-o. Um dia, você encontrará outra porta.

 

— E o que haverá do outro lado?

 

— Aquilo de que você precisar. Ou aquilo de que mais tem medo. Nem sempre é possível distinguir uma coisa da outra.

 

Malina voltou para casa numa tarde de sol.

 

A chuva caía normalmente. As árvores eram árvores, as pedras eram pedras e o muro do bosque continuava exatamente onde sempre estivera.

 

Ninguém percebeu sua ausência.

 

Sua mãe perguntou por que ela estava tão suja. Malina respondeu que havia caminhado pelo bosque e tropeçado numa raiz. Não era uma mentira completa, e descobriu que as mentiras incompletas eram as mais fáceis de contar.

 

Naquela noite, guardou o colar numa caixa de madeira e colocou-a debaixo da cama.

 

Depois apagou a luz.

 

Por um instante, pensou ter ouvido alguém bater à porta.

 

Três batidas lentas.

 

Esperou.

 

Outras três.

 

Malina levantou-se, atravessou o quarto e abriu a porta.

 

Não havia ninguém no corredor.

 

Apenas uma pequena sombra no chão, projetada por uma luz que não vinha de lugar algum.

 

A sombra usava um chapéu de palha.

 

E, antes de desaparecer, inclinou a cabeça para ela, como um velho amigo que não se lembrasse de seu nome.

 

Malina fechou a porta.

 

Dessa vez, não sentiu medo.

 

Afinal, aprendera algumas coisas nas Terras do Fim do Mundo.

 

Aprendera que monstros nem sempre têm dentes. Que príncipes podem ser animais, que homens podem ser espantalhos e que os magos, apesar de todo o poder, raramente sabem responder às perguntas importantes.

 

Mas, acima de tudo, aprendera que nem toda porta precisa ser atravessada.

 

Algumas existem apenas para nos lembrar de que há outros mundos.

 

E de que, um dia, talvez tenhamos coragem de conhecê-los.

 

Fim.




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