Charlie e a Raposa Mágica
Um conto sobre bondade, fome e desejos
que encontram caminhos misteriosos.
Charlie era um menino tão magro que,
quando o vento soprava forte, precisava se agarrar ao próprio chapéu para não
ser levado junto com as folhas secas.
Era também um menino bondoso.
As pessoas diziam que isso acontecia
porque seus pais eram bondosos. Talvez fosse verdade. Talvez a bondade fosse
uma das poucas coisas que uma família pobre pudesse transmitir sem medo de
ficar sem nada.
Charlie vivia com os pais numa cabana
de madeira no limite de uma floresta. O teto tinha goteiras, a porta rangia
mesmo quando ninguém a tocava, e havia uma fresta na parede do quarto por onde
o inverno entrava para dormir com eles.
Não havia muito o que comer. Algumas
noites, o jantar era uma sopa rala. Em outras, era apenas água quente, que a
mãe de Charlie preparava com o mesmo cuidado de quem faz um banquete.
— Coma devagar, querido — ela dizia,
quando havia alguma coisa no prato. — Assim dura mais.
Charlie nunca perguntava quanto tempo
precisava durar.
Todas as manhãs, ele saía para
caminhar pelos campos. Gostava de observar os riachos, as pedras cobertas de
musgo e as árvores antigas, cujos galhos se entrelaçavam como dedos de gigantes
enterrados sob a terra.
Seu pai pescava nos riachos quando os
peixes estavam dispostos a colaborar. A floresta, porém, era generosa de
maneiras estranhas. Às vezes oferecia amoras. Às vezes, cogumelos. E às vezes
não oferecia absolutamente nada, como se estivesse zangada com o mundo.
Naquela manhã, o frio era tão intenso
que Charlie conseguia ver a própria respiração. Vestia um casaco remendado,
botas grandes demais e um chapéu que pertencera ao avô, que, segundo sua mãe,
tinha sido um homem muito elegante antes de morrer.
Charlie não sabia exatamente o que
significava ser elegante, mas gostava de imaginar que o avô tinha sido alguém
importante.
Foi quando ouviu um ruído.
Não era o canto de um pássaro, nem o
farfalhar de um esquilo entre as folhas. Era um som pequeno e aflito, como o de
alguém tentando chorar sem fazer barulho.
Charlie seguiu o ruído até um arbusto
espinhoso.
Ali estava uma raposa.
Era menor do que as raposas que ele
costumava ver nas ilustrações de um livro velho que seu pai guardava numa
caixa. Tinha o pelo avermelhado, as orelhas negras e olhos dourados, brilhantes
como moedas esquecidas no fundo de um poço.
Uma armadilha de ferro prendia sua
pata dianteira.
O sangue manchava a neve.
Charlie olhou ao redor. Não havia
ninguém por perto. Apenas as árvores, o céu cinzento e a floresta, que parecia
observar tudo com uma paciência antiga.
— Não se preocupe — disse ele,
ajoelhando-se na neve. — Vou tirar isso de você.
A raposa mostrou os dentes.
Charlie parou por um instante.
— Eu sei que está doendo — continuou.
— Mas não vou machucar você.
Ele segurou o mecanismo enferrujado
com as duas mãos. Era pesado e frio. Seus dedos doíam, e uma das pontas do
metal cortou sua pele. Ainda assim, ele insistiu até que a armadilha se abriu
com um estalo.
A raposa puxou a pata e recuou.
Charlie tirou o próprio cachecol e o
enrolou delicadamente ao redor do ferimento.
— Pronto — disse. — Acho que agora
você vai ficar bem.
A raposa não foi embora.
Ficou olhando para ele com seus olhos
dourados.
Então falou:
— É curioso.
Charlie deixou cair o pedaço de
metal.
— Você... você fala!
— E você sangra — respondeu a raposa.
— Parece que ambos descobrimos alguma coisa nesta manhã.
Charlie olhou para a própria mão
cortada.
— Você é uma raposa mágica?
A raposa inclinou a cabeça.
— Sou muitas coisas. Mas, no momento,
sou uma raposa que está com frio, com fome e com uma pata machucada. Imagino
que você compreenda as três situações.
Charlie sorriu.
— Compreendo.
A raposa examinou o menino dos pés à
cabeça. Seus olhos demoraram um pouco mais no casaco remendado, nas botas
gastas e nas faces magras.
— Durante muito tempo, pensei que os
homens fossem criaturas cruéis — disse ela. — Eles armam laços, derrubam
árvores, envenenam os rios e chamam tudo isso de necessidade. Nunca encontrei
um homem que me ajudasse sem esperar alguma coisa em troca.
— Eu não quero nada de você —
respondeu Charlie.
— É exatamente isso que torna você
tão estranho.
A raposa se levantou. Por um momento,
sua sombra pareceu grande demais para seu corpo. Estendeu a pata ferida sobre a
neve, e o sangue desapareceu. O corte se fechou. O pelo voltou a crescer,
vermelho e brilhante.
Depois, ela sacudiu o corpo.
Pequenas faíscas douradas flutuaram
ao redor dela, embora não houvesse fogo algum por perto.
— Charlie — disse a raposa.
Ele arregalou os olhos.
— Como sabe meu nome?
— As florestas sabem muitas coisas.
Os riachos também. E as casas de madeira, sobretudo aquelas com goteiras,
costumam falar bastante durante a noite.
Charlie não gostou muito daquela
última parte.
— Por ter me libertado, vou lhe conceder
um desejo — continuou a raposa. — Um único desejo. Pense com cuidado. Você pode
pedir ouro, uma coroa, um castelo, poder para fazer os outros obedecerem a
você. Pode pedir qualquer coisa que sua imaginação consiga alcançar.
Charlie pensou.
Pensou nos peixes que seu pai trazia
para casa, cada vez menores. Pensou na mãe fingindo estar satisfeita depois de
lhe entregar sua porção. Pensou nas noites em que acordava com fome e ficava
quieto para que seus pais não soubessem.
Por fim, respondeu:
— Eu quero que minha família nunca
mais passe necessidade. Nem eu, nem meu pai, nem minha mãe.
A raposa permaneceu imóvel.
Pela primeira vez, pareceu não saber
o que dizer.
— Você poderia ter pedido qualquer
coisa — murmurou.
— Eu sei.
— Poderia ter pedido uma montanha de
ouro.
— Mas minha mãe não conseguiria comer
ouro.
A raposa fechou os olhos.
Quando tornou a abri-los, havia neles
algo que Charlie não soube reconhecer. Talvez fosse tristeza. Talvez fosse uma
espécie de respeito. Ou talvez fossem apenas reflexos da neve.
— Então será feito — disse ela.
E abanou o rabo.
O mundo desapareceu.
Não houve trovão. Não houve clarão.
Charlie não sentiu dor, nem mesmo medo. Foi como se alguém tivesse apagado uma
vela e, ao acendê-la novamente, descobrisse que a chama pertencia a outro
lugar.
A floresta sumiu.
A neve sumiu.
A raposa também.
Quando Charlie abriu os olhos, estava
diante de uma casa que nunca tinha visto.
Era uma casa bonita, com paredes
sólidas, janelas iluminadas e uma chaminé de onde saía uma fumaça perfumada.
Havia árvores carregadas de frutas no jardim, lenha empilhada junto à porta e
um pequeno riacho correndo perto da cerca.
Seu pai estava ao lado dele.
Sua mãe também.
Os dois pareciam confusos, mas
estavam vestidos com roupas quentes. Sua mãe tinha as faces rosadas. Seu pai
segurava uma cesta cheia de pães, maçãs e queijos.
— Charlie? — chamou sua mãe. — Onde
estamos?
Ele não sabia responder.
A porta da casa se abriu sozinha.
Lá dentro havia uma mesa posta, um
fogo aceso e camas macias. Na cozinha, panelas fumegavam sobre o fogão. Na
despensa, sacos de farinha se empilhavam ao lado de potes de conservas, frutas
secas e enormes rodas de queijo.
Pela primeira vez na vida, Charlie
entrou numa cozinha sem precisar calcular quantas refeições poderiam ser feitas
com o que havia ali.
Sua mãe começou a chorar.
Seu pai abraçou os dois.
E naquela noite, comeram até ficarem
satisfeitos.
Não houve necessidade de guardar
metade do pão para o dia seguinte. Ninguém fingiu não estar com fome. Ninguém
disse que já tinha comido antes.
Charlie dormiu numa cama quente, sob
um cobertor tão macio que parecia feito de nuvens.
Na manhã seguinte, havia neve do lado
de fora.
Charlie se levantou, foi até a janela
e olhou para a floresta distante.
Entre as árvores, por um breve
instante, viu dois olhos dourados.
Uma pequena raposa estava sentada
sobre uma pedra, observando a casa.
Charlie sorriu e ergueu a mão para
cumprimentá-la.
A raposa não retribuiu o gesto.
Apenas abriu a boca, como se
estivesse sorrindo também.
Então desapareceu entre os troncos.
Charlie nunca mais passou fome. Seus
pais nunca mais precisaram escolher entre comer e comprar lenha. A casa
permaneceu aquecida, a despensa continuou cheia e o riacho nunca deixou de
oferecer peixes.
E, com o passar dos anos, Charlie
cresceu.
Tornou-se um homem generoso. Ajudava
os vizinhos, alimentava os viajantes e deixava uma tigela de leite junto à
porta nas noites mais frias, caso algum animal precisasse de abrigo.
Nunca se esqueceu da raposa.
Às vezes, quando o vento soprava pela
chaminé, ele tinha a impressão de ouvir uma voz distante, rindo baixinho entre
as árvores.
E, em certas manhãs de inverno,
encontrava pegadas pequenas na neve diante da casa.
Pegadas que começavam no meio do
jardim.
E terminavam diante da porta.
Sem nunca voltar para a floresta.
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