templo e outros poemas
Ó, fogo constante dos tijolos
ó verde belo e branco desse
corpo tão suave onde toco
um murmúrio de lembranças
onde o coração dança
acima da água e das chamas
e lembra quando vivia sendo
uma pequena criança, ou uma
ovelha perdida no campo,
a noite, a bela noite, e estrelas
em quatro olhos se olhando
no escuro: o cheiro doce do cimento
a voz de um beijo o bafo sexual
o forte envolvimento e então
prédios, a janela não fechada,
nenhum camisinha aberta apenas
a vontade dura de dois paus encobertos
pelo tempo, por esse tempo lindo
que nunca voltou e que se foi
para escrever outro romance
e outro destino que já não os
nossos.
A CASA DE CAMPO
Bem distante a porteira
e dentro do colchão a dança da memória
no sistema imperial japonês
quando ali na cama
duas almas se encontravam
entre o grilo da noite
e o cafezal distante, distante,
sobre o vento do canavial,
a doce música do nosso gozo,
tu primeiro, transparente,
e depois eu em tua boca
entre a escuridão do guaxinim
e o lampejo doce do cão branco.
O PRETO
No escuro, esse quadro
esse quadrado escrito entre
os nossos versos
e os nossos dedos se
unindo, se sarrando,
um beijo doce igual uma
pequena mariposa escura
escondido na sombra
de uma grande árvores,
olhos anônimos que não
viram tua boca sentindo
meu esperma grosso
sendo descarregado em
tua boca, tua boca quente,
e entre o pensamento e o sol
a africa inteira nos saudando
nessa dança amorosa
entre meu amor e o teu amor.
TERRENO BALDIO
Noite alta nas calçadas
a vida passando entre os
passos das pessoas que
caminham na cidade pequena.
O campo de futebol quieto,
as casas quietas,
as flores, já mortas, sem perfume,
o rio tão distante de nossas lágrimas,
e lá vamos, tu e eu, bons,
amigos, dois homens,
no dia seguinte a pergunta devastadora:
teu pai?
claro que não,
um pai assim não existe.
As estrelas entenderiam que
esse ar afoito entre o
toque e a mansa boca
seria a qualificação do espaço
cósmico entre dois seres tão
diferentes, pele negra e pele branca.
t.s. eliot escrevendo nos muros
sua sinistra poesia, e ele ali,
ereto, diante de mim, gato preto,
olhando e dando o cuspe branco
de uma onda orgástica na boca
caindo, caindo, caindo,
folha verde e raízes escuras,
perdidamente perdido nessa
nebulosa lembrança afoita.
CANAVIAL
O calor quente do trópico
unindo nossos corpos suados
ó o luar que saltou branco
da cabeça escura da noite
jorrando o leite e o mel na
boca dos desejosos assobios
que tu e eu não respondemos.
UM ESPINHO NA MINHA ALMA
E então ele entrou
e esteve algum tempo comigo
e eu amei
esse espinho belo e profundo
que na minha alma
descansou.
TEMPLO
Templo desse teu corpo
dessa nuvem negra
dessa chuva bela
desse seu sorriso de máquina
dessa tua espada grossa
desse teu lírio negro
desse teu corpo africano
templo desse teu corpo
amado que eu tanto amo.
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