domingo, 29 de março de 2026

A Mulher de Barro e Luz

 A Mulher de Barro e Luz


A mulher brasileira caminha como quem carrega a praça nas costas,

com um sol que lhe marca a nuca

como um selo de ferro em gado que nunca se entrega.

Ela é a poeira das estradas que sobem as serras,

é o suor que vira sal no rosto,

é o movimento firme das mãos que abrem o dia

como quem abre uma lata de sardinha ou um horizonte novo.


Ela é o sol que arde, o sol que descasca a tinta das casas,

o sol que pergunta "o que você tem para mim hoje?"

Mas as nuvens, ah, as nuvens são mentirosas de terno e gravata,

pairando lá no alto, gordas e indiferentes.


Onde está a chuva que me prometeram?

A chuva que deveria lavar a calçada,

a chuva que deveria trazer o silêncio dos telhados,

a chuva que limpa a promessa,

a chuva que nos faz acreditar, só por um instante,

que a terra ainda sabe como chorar por nós.


Mas ela continua, a mulher,

sob o sol sem perdão,

com o balde na mão,

esperando o temporal que não cai,

ou talvez, já sabendo que o céu é apenas um teto

pintado de azul seco,

e que a sede é o único rio que nos pertence.

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