A Mulher de Barro e Luz
A mulher brasileira caminha como quem carrega a praça nas costas,
com um sol que lhe marca a nuca
como um selo de ferro em gado que nunca se entrega.
Ela é a poeira das estradas que sobem as serras,
é o suor que vira sal no rosto,
é o movimento firme das mãos que abrem o dia
como quem abre uma lata de sardinha ou um horizonte novo.
Ela é o sol que arde, o sol que descasca a tinta das casas,
o sol que pergunta "o que você tem para mim hoje?"
Mas as nuvens, ah, as nuvens são mentirosas de terno e gravata,
pairando lá no alto, gordas e indiferentes.
Onde está a chuva que me prometeram?
A chuva que deveria lavar a calçada,
a chuva que deveria trazer o silêncio dos telhados,
a chuva que limpa a promessa,
a chuva que nos faz acreditar, só por um instante,
que a terra ainda sabe como chorar por nós.
Mas ela continua, a mulher,
sob o sol sem perdão,
com o balde na mão,
esperando o temporal que não cai,
ou talvez, já sabendo que o céu é apenas um teto
pintado de azul seco,
e que a sede é o único rio que nos pertence.
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