segunda-feira, 30 de março de 2026

O Preço das Palavras

 

O Preço das Palavras

Conto ficcional


 Ruam digitava furioso no Twitter, os dedos batendo no teclado como se quisessem afundá-lo: "Paula Parysoti só está nas livrarias porque abriu as pernas pro Rubem Fonseca. Ninguém me convence do contrário." 

Ele soltou o celular na mesa do bar, satisfeito com a própria coragem. Era fácil falar sem provas, mas ele gostava do sabor amargo da provocação.

 Afinal, ele, Ruam, talentoso e desconhecido, merecia muito mais do que ela. Três dias depois, um e-mail chegou. "Quer conversar sobre o que escreveu? Paula Parysoti."

 Ruam riu—era óbvio que ela não tinha como provar o contrário. Aceitou o encontro num café da Zona Sul, já ensaiando frases de deboche. Mas quando ela chegou, vestindo um vestido vermelho que parecia derreter sobre seus quadris, ele engoliu em  seco. 


Paula sorriu, puxou uma cadeira, e sem dizer uma palavra, deslizou um manuscrito em sua direção. "Rubem nunca me tocou," ela disse, os olhos escuros fixos nele. "Mas eu li seus contos... Você tem talento. Só falta entender o que realmente move as histórias."

 Antes que ele pudesse responder, ela levantou, deixando o perfume no ar—doce e afiado. "Se quiser aprender, me encontre no meu apartamento. Às oito."

 Ruam foi. A porta abriu, e Paula estava lá, agora só de camiseta, as pernas nuas sob a franja do tecido. Ela não falou de livros, não discutiu literatura. 

Em vez disso, pegou sua mão e a levou à cama, onde lhe mostrou, com o corpo, como algumas histórias são escritas sem palavras. 

Na manhã seguinte, com os lençóis enrolados entre eles, Paula acendeu um cigarro e soltou a fumaça devagar. "Agora você sabe o preço de ser publicado... e o preço de caluniar alguém." Ruam nunca mais twittou sobre ela. 

Mas, anos depois, quando seu primeiro livro saiu, dedicou-o à "mulher que me ensinou a diferença entre rumor e realidade."

Era verdade—mas ninguém acreditou!

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