domingo, 29 de março de 2026

A Costa Inútil

 A Costa Inútil


O sol, de um amarelo pálido e barato,

Desce sobre as cadeiras de plástico e o café frio,

Onde a luz do entardecer faz um acerto de contas

Com o que resta do verão — este tédio que se arrasta.

Pessoas passam, ou talvez sejam apenas sombras

Ajustando os casacos contra um vento que insiste

Em soprar do mar que não conhece o nosso nome.

Olho para o mapa desdobrado na mesa,

Para o traçado de estradas que levam a lugares

Onde o brilho é apenas a falha da lente,

E pergunto, enquanto o cinzeiro se enche de cinzas:

Será que tudo é um sonho espanhol melancólico e frio?

Uma encenação de luzes contra o fim iminente,

Onde a alegria é só o preparo para a ausência?

Aqui não há guitarras, apenas o ruído do tráfego

E a percepção, lenta e impiedosa, de que o tempo

Não nos pertence, e que o paraíso, se existiu,

Foi apenas um lugar onde esquecemos de verificar

Se as malas estavam, de fato, trancadas.

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