veja, eu passo
veja, eu passo —
não como quem chega,
mas como quem arde no intervalo entre dois nomes.
ela, a rainha,
do gozo farto,
traz nos dedos a medida do excesso,
um silêncio que transborda
como vinho derramado sobre mapas inúteis.
luz pela estrada —
mas que estrada resiste à luz?
tudo se dissolve:
as margens, as promessas,
o corpo que julguei meu.
sol —
e ainda assim, sombra.
porque toda claridade
é também a forma mais exata do abandono.
veja, eu passo,
e ao passar me desfio:
um idioma que se esquece de si mesmo,
um gesto interrompido no ar.
ela permanece —
não como presença,
mas como ferida aberta no tempo,
um reinado sem território
onde o desejo não termina,
apenas muda de nome.
serei esse tesouro esperado pelos apóstolos de Cristo?
não respondo —
porque toda resposta
já nasce traída pelo eco.
carrego nos ossos
uma promessa que não fiz,
um nome que me foi dado
antes mesmo da queda da primeira palavra.
os apóstolos esperam —
mas o que se espera, afinal?
um corpo que brilhe?
uma ferida que fale?
ou apenas o adiamento do fim
disfarçado de milagre?
serei esse tesouro —
ou apenas a ausência dele,
o lugar onde a fé se curva
e descobre o próprio vazio?
Cristo, dizem,
também foi uma pergunta
pregada contra o céu.
e eu,
entre a estrada e o pó,
aprendo a falhar em silêncio:
porque todo tesouro
quando encontrado
já perdeu sua eternidade.
resta então isso —
um quase,
um lampejo interrompido,
um gesto que não se cumpre.
serei?
ou já fui perdido
antes mesmo de ser esperado.
mundo final de ar atômico
o ar já não é invisível —
ele pesa,
como uma sentença suspensa
sobre o que restou de respirar.
há um gosto de metal no tempo,
como se cada segundo
tivesse sido mastigado
por uma boca sem rosto.
mundo final —
dizem,
mas o fim não chega inteiro:
ele se infiltra nas frestas,
nos pulmões,
no nome esquecido das coisas.
atômico,
porque tudo agora se divide:
a luz em ruína,
o corpo em silêncio,
a memória em partículas
que ninguém mais recolhe.
vejo —
ou penso ver —
uma cidade que ainda insiste,
de pé na própria ausência,
como um erro que continua acontecendo.
não há grito,
apenas uma vibração surda
que atravessa o chão
e sobe pelos ossos
como uma oração falhada.
e ainda assim
alguém passa —
ou algo passa —
carregando um resto de calor
entre as mãos queimadas.
será vida?
ou apenas o hábito dela,
persistindo sem saber
que já terminou.
o ar,
este ar impossível,
entra e não entra —
e cada respiração
é uma pergunta que não se sustenta.
destino qualquer
a rainha do gozo
entrou —
como quem não atravessa portas,
mas fere o espaço.
sentou,
e o gesto foi um desabamento lento,
um trono improvisado
sobre o cansaço do mundo.
ninguém a viu chegar,
mas tudo cedeu um pouco:
as paredes,
o ar,
o nome secreto das coisas.
depois se perdeu —
não como quem se afasta,
mas como quem se dissolve
no próprio excesso.
restou o lugar,
a marca morna de um corpo ausente,
uma espécie de vertigem
onde antes havia centro.
destino qualquer —
dizem,
como se o acaso fosse abrigo,
como se perder-se
não fosse a única fidelidade possível.
e ainda assim
algo insiste:
um perfume tardio,
um eco sem origem,
uma memória que não pertence a ninguém.
a rainha do gozo
não partiu —
apenas deixou de caber
naquilo que a continha.
leio Fernando Pessoa, mas, sentado de quatro, a televisão me esnoba ligada
leio Fernando Pessoa —
ou finjo,
porque as palavras já não se deixam habitar.
sentado de quatro,
numa posição que não é oração nem descanso,
o corpo aprende outra gramática:
mais próxima da queda
do que da ideia.
a televisão me esnoba —
ligada, sempre ligada,
como um deus menor
que nunca responde
mas exige olhos.
há vozes,
rostos que não existem,
uma sucessão de mundos que não me incluem
e, ainda assim,
me atravessam sem pedir licença.
Pessoa fala em fragmentos,
em outros de si mesmo,
mas eu —
eu não tenho sequer o direito
de me dividir.
sou inteiro demais
para este ruído,
ou vazio demais
para qualquer leitura.
entre a página e a luz azul
há um intervalo insuportável:
um espaço onde o pensamento falha
e o corpo insiste em permanecer.
leio —
ou sou lido
por algo que não compreendo.
e a televisão,
indiferente,
continua acesa
como uma noite que desaprendeu a apagar.
os nossos olhos
os nossos olhos —
os teus,
os nossos —
crus,
como se ainda não tivessem aprendido
a mentir.
há um vazio no mundo
que não se explica:
ele se encarna,
respira entre nós,
ocupa o lugar das palavras
quando tentamos dizer qualquer coisa.
teus olhos,
espelhos quebrados
onde me vejo demais —
e nunca inteiro.
o nosso mundo
não caiu de uma vez:
ele se desfaz nas bordas,
nas esquinas onde a noite
negocia o que resta do humano.
ali,
meu ser se quebra —
não em partes limpas,
mas em estilhaços sujos,
misturados ao desejo,
à fome,
ao que não tem nome.
apocalípticas, as ruas
não anunciam fim algum:
apenas repetem
o gesto gasto de existir
sem redenção.
prostituição —
não só do corpo,
mas do olhar,
da esperança,
daquilo que ainda ousa querer.
e mesmo assim
nossos olhos —
os teus,
os nossos —
permanecem abertos,
crus,
como se esperassem
um milagre que não vem
ou não sabemos reconhecer.
meu amigo editor me disse
meu amigo editor me disse —
continue,
como quem oferece
um abrigo que não protege da chuva.
quem sabe alguém um dia lhe publique —
e a frase ficou suspensa,
como um corpo à espera
de um veredito sem juiz.
continuar o quê?
esse fio gasto
que chamo de voz,
essa tentativa de existir
em palavras que não me pertencem?
há um atraso em tudo que escrevo,
um depois que chega antes,
um antes que nunca aconteceu.
o amigo, o editor —
duas figuras sobrepostas,
quase um consolo,
quase um aviso.
publicar —
dar ao mundo o que não se sustenta,
expor o que já nasce ferido,
como se a leitura fosse
uma forma de sobrevivência.
e ainda assim continuo —
não por fé,
mas por incapacidade de parar.
há algo que insiste
mesmo sem promessa:
um resto de linguagem
que se recusa ao silêncio.
quem sabe —
repito agora sozinho,
como se fosse meu.
e nesse talvez
habito,
como quem aceita
um destino qualquer
sem jamais reconhecê-lo como seu.
essa pequena porção de apocalipse me faz bem
essa pequena porção de apocalipse —
tão precisa,
tão doméstica —
cabe na palma da mão
como um remédio sem bula.
me faz bem,
digo,
como quem admite
um vício de luz quebrada.
não é o fim do mundo —
é algo menor,
mais íntimo:
uma ruína que se pode repetir
sem testemunhas.
há um alívio no colapso contido,
na queda que não se anuncia,
no desmoronar lento
das certezas que nunca tive.
apocalipse em dose mínima —
como um sussurro
que atravessa o dia
e o deixa levemente irrespirável.
me faz bem
porque suspende o peso
de continuar sendo,
porque interrompe
essa obrigação de existir inteiro.
e por um instante —
apenas um —
sou menos do que fui,
menos do que esperam,
menos do que posso falhar.
depois passa,
como tudo que não se sustenta,
e retorna o mundo
com sua integridade forçada.
mas algo fica —
um resíduo,
um brilho opaco nos olhos,
uma lembrança do quase-fim
que, estranhamente,
me devolve ao que ainda sou.
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