domingo, 29 de março de 2026

Geografia de Quarto

Não, não me venham com mapas abertos na mesa da cozinha,

não me falem das luzes de Paris ou do pó das ferrovias da Ásia.

Não quero conhecer o mundo —

esse bicho grande, barulhento, de engrenagens cegas

que engole os dias e cospe horas vazias.


Eu quero apenas a geografia da tua cama.

As fronteiras que os teus lençóis desenham quando se amassam,

o clima que muda de repente quando o teu pé toca o meu

no escuro que protege e não pergunta nada.


O mundo é um sujeito de terno que mente sobre o progresso,

mas aqui, entre o travesseiro e a tua respiração,

as leis são outras:

aqui o tempo não corre para atingir metas,

ele apenas dorme, pesado e satisfeito.


Deixem que os generais conquistem territórios,

deixem que os poetas expliquem as estrelas.

Eu encontrei meu continente,

minha paz, minha pequena rebelião de algodão e pele.

O resto é ruído;

o resto é apenas o mundo tentando ser importante.

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